7 Meses na América do Sul

A PUC de Santiago, o Direito chileno, o pisco e as empanadas, os Andes, o Pacífico, a Sudamérica, Rapa-Nui ... enfim, La Libertad.


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6.2.08

Espectros

[17 a 20 de Janeiro de 2008]

O regresso a Santiago fica marcado pela nostalgia. E pelos fantasmas, uns que lá encontrei e outros que lá deixei.

A Casa Suecia, reduzida a escombros numa das cozinhas e a residentes espalhados pelos quartos, surge como um qualquer hostel. Pior. É uma casa que já foi minha mas que ainda näo deixou de ser. Mostro orgulhoso os espaços, domino as cozinhas e as áreas comuns, mas näo tenho pessoas para apresentar às oito e meia da manhä daquela quinta-feira. A Maria, mäe adoptiva disfarçada de empregada, há-de aparecer, como a Nohemi, mexicana espampanante que se adivinha pela voz esganiçada na entrada. E a Nany, México também, que lá estava com uma irmä e uma amiga, mais os chilenos Dani (coreano de nascença) e Carlos, que ficaräo mais um semestre. Começa a compor-se, penso. Mas as conversas recaem sempre nas saídas dos conhecidos e nas próximas, muito próximas, chegadas de desconhecidos.

O Joaquín (equatoriano, um dos meus irmäos suecos mais próximos) havia de ir acordar-me já eu dormia, depois de um dia ao sol, quente, tórrido, em que mostrei Santiago ao Bessa, com os Andes como espectro por trás do smog, também ele um fantasma santiaguino costumeiro. Foi uma noite de carrete, em que passámos chanchos no Subterräneo, terminando em Casa abraçados quase a chorar diante de fotografias do nosso semestre (o Bessa ficou a dormir nessa noite, o que me permitiu umas liberdades emocionais). E o Juan (um "tío" espanhol, outro grande mano de armas), que se veio despedir de propósito dois dias depois, cujos reencontros ficaram pendentes para Madrid e Lisboa.

Mais os Icos (Mico, Chico e Kiko) e o Guilherme (os três primeiros tugas-chilenos residentes e o último companheiro das últimas semanas de semestre), que fizeram um desvio ao plano original da sua viagem para mais uma última noite comigo em Santiago. Uma noitada em que o taxista Hugo, nosso condutor nas fiestas no Chile, se despediu sudamericanamente de abraço e beijo, e em que esgotámos o que o Sala Murano, nossa discoteca de eleiçäo, nos podia oferecer, em väo procurando acima das cabeças os outros portugueses, dançando ao som do reggaeton com uma chilena menos feia (ou gira, coisa rara) que encontrassem, de "piscola" (pisco e Coca-Cola) na mäo.

E a Sanchinha (que finalmente se juntou a nós), para quem esta re-passagem por Santiago fica marcada por um espectro da alegria que teve antes, pela angústia de uma mochila perdida em Buenos Aires que lá acabou por aparecer. Umas 24 horas de espera que nos fizeram dormir uma noite clandestinos na Casa Suecia, levando-me a sair de manhäzinha, pela porta pequena, ainda que com uma mensagem gravada a verde nas paredes no hall de entrada e de recuerdos. [desfeita à dona, merecida pelo que nos cobrou em excesso nessas noites e durante o semestre]

Espectro foi também Valpo, vista à pressäo, que com o céu tapado näo mostrou metade dos seus encantos, numa visita fugidia que nos levou também a Viña del Mar - que näo conheci bem e bem que gostava - e à praia de Reñaca com aqueles tugas-chilenos.

Espectros. Fantasmas. Sombras. Fecho os olhos e vejo Santiago e a Casa Suecia deixarem correr o seu destino. As nossas marcas nas paredes, nos móveis, no cheiro da casa näo säo mais do que espectros do nosso semestre. As festas e as pessoas dos nossos cinco meses säo fantasmas que assombraräo quem lá viver, de passagem por um semestre ou outro. Sombras vivas que parecem sair das paredes e contar estórias. "E quando nevou.."; "E aquele que adormeceu aqui..."; "E quando tirámos os móveis todos e..."; "E quando o outro caíu do telhado..."; "E aquele casalinho...".

As pessoas escutaräo, assombradas, e diräo para si próprias, como eu disse em Agosto, que teräo o melhor grupo e o melhor semestre de sempre. E um de nós, ou o nosso espectro, suspirará e dirá para o ar, como cantávamos entre nós a música que agarrou o fim dos nossos dias na Casa Suecia - "I hope you have the time of your life".

16.1.08

Sinal de vida

[Bariloche, Argentina]

Só para dizer que sigo vivo, bem vivo e bem vivido, nesta Sudamérica.

O hostel surreal em que estou e o tempo de viagens de autocarro impede-me de escrever muito, mas no meu Moleskine tenho três posts na ponta da folha, mais um de fotografias.

Estamos de saída, de vez, da Argentina, mais um país que se fecha. E daqui vamos para Santiago - de regresso a Casa! - onde poderei por aqui tudo o que está em falta.

Vemo-nos daqui a muitos quilómetros, num sítio que já conhecemos.

16.12.07

Para cá da Cordilheira

Sentado num segundo andar de uma ruela pequena mas movimentada em Barra da Lagoa, Ilha de Santa Catarina, abro o moleskine e passo uma vista de olhos pelos últimos dias e pelos 10 posts que tenho de escrever sobre o meu último mês no Chile. Decido saltar esse período e guardar os posts, escritos em tópicos, para outras alturas. Quando os postar vão estar com a tag Remirada. Mas agora, agora é tempo de seguir viagem.

A saída de Santiago foi triste. Muito. A lágrima chegou a estar cá fora à medida que me afastava de Casa em direcção ao aeroporto. Quis o destino - ou o motorista - que fizessemos um percurso que apanhou alguns dos lugares marcantes da minha vida este semestre. A Casa Central da PUC, jardins, ruas no Centro, tudo visto da perspectiva das cinco da manhã, quieto, solene, cinzento. De luto. De despedida. Chegara ao fim.

Começava uma nova etapa - a Viagem pela Sudamérica. Tudo muito lento no aeroporto, mais os 144 dólares de excesso de bagagem, eu a atrasar-me com todos estes problemas, sem dormir, mais o Starbucks fechado. Uma conjugação de factores que me empurrava de volta para Santiago. Resoluto, opus-me a tudo e lá saí. Para o Rio.

Avião da LAN Chile impecável, televisão em cada banco, sozinho numa fila de três lugares, a viagem ideal para me desligar do facto de estar a sair de uma ciudad a que me habituei a chamar de minha, do semestre mais brutal da vida.

Atravessar a Cordilheira dos Andes foi o marco. O cortar do cordão umbilical - já não sou mais chileno, santiaguino, sou um cidadão destra Maíuscula América, seja de que país for.

O Brasil não me chamava especial atenção, queria sair de lá o mais rápido possível para voltar a mergulhar no imenso mundo hispano-americano a que me habituei a pertencer. O Rio, talvez sentindo esta minha quase hostilidade, recebeu-me com as luzes dos corredores e das salas do aeroporto sem funcionar, sem hipótese de trocar dinheiro. Lá me meti num táxi e cheguei ao Leblon. Banho no mar e filet com queijo no Bigpólis depois, estava atolado em água - levantou uma tempestade tropical que só nos largou quando, um dia depois saímos do Estado do Rio de Janeiro.

Hei-de lá voltar em Fevereiro, alimentado por histórias do Bessa sobre a Cidade Maravilhosa. E aí vou querer viver tudo. E o Rio vai receber-me com sol e luz. E até o filet com queijo vai saber melhor.

4.12.07

O umbigo do (meu) mundo

Te pito o te henúa. Expressão rapanui (língua de Rapa Nui) para dar o nome à Ilha.

Do que tenho vivido em Santiago nos últimos 20 dias tem afastado qualquer hipótese de passar muito tempo em Casa ou, se cá, do computador. A emoção dos acontecimentos que ficaram por narrar desvanece-se. Ou melhor, não a emoção de os ter vivido mas antes a melhor forma para transmitir aquilo que senti. No fundo, é uma questão de maior proximidade com o realismo, descrever as coisas como são, ou de expressionismo, apresentá-las de acordo com aquilo que nos fazem sentir. Ou metaforizando com o meu quadro preferido - o objectivo é o Starry Night, evolução artística do Starry Night Over the Rhone, ambos do Vincent. Só que toda a emoção que sou capaz de transmitir agora está ligada aos últimos dias em Santiago, aos quais tento desesperadamente agarrar-me.

Mas estive lá. E a história desta viagem, por muito que me agarre agora ao presente, faz parte já da minha vida e a oportunidade de a viver e, agora, de a contar foram outros dos motivos que me fizeram escolher o Chile.

O umbigo do mundo, ou Te pito o te henúa. Não sei porquê a razão por trás deste nome polinésico, mas é ideal para a encruzilhada, com três caminhos, em que me encontro, e a que trouxe o blog. Uma estrada leva-me de volta ao passado, onde vejo Rapa Nui (e o post que merece) qual cicatriz matriz de vida na Terra, de ligação ao ventre do Globo, pequena marca no Pacífico. Outra, que ainda atravesso, é Santiago do Chile, umbigo do meu mundo, do meu semestre, cicatriz que ficará para sempre marcada em mim, quando seguir para o outro caminho, que me fará cruzar a Sudamérica para depois me levar a casa, em Portugal.
















[No umbigo do mundo ----------------------------------------- No umbigo do meu mundo]



PS - este post foi escrito depois de iniciado o próximo, o que descreve a viagem a Rapa Nui, mas tinha de ser feita esta introdução; para hora - fictícia - de entrada escolhi a dada pela soma das coordenadas de Rapa Nui (27º 7' S 109º 23' W), a partir da meia-noite.

19.11.07

Parrillada 6

A sala grande está quase sempre demasiado quente e a luz do candeeiro por cima da mesa, apesar de escassa, aquece-a ainda mais e dá aos móveis sombra em tons alaranjados. A avó, buscando no móvel atrás do sofá, retira de entre os brinquedos e recordações da infância do filho um caderno, um boletim informativo dos tempos do Colégio. Como se o relesse todos os dias, abre-o directamente na página que lhe interessa. Por entre elogios à capacidade de observação, do poder de síntese e de simplicidade, lê em voz alta a descrição do filho, que não teria mais de 12 anos na altura, fizera da Festa das Famílias. Foi qualquer coisa como o que a seguir se transcreve que a avó, naquela sala quente e escura, em passada lenta mas segura, declamou para o neto:
«Vi, li, comi, bebi, brinquei, saltei, joguei, ri».

Os dias esbatem-se. Já não sei se estou a vivê-los ou simplesmente caminho num corredor de espaço e tempo indefinidos, espreitando de vez em quando para portas entreabertas e vendo, em cada uma delas e apenas por breves segundos, imagens de um dia no Chile. Dias que parecem pertencer a outro e outros. Eu, no silêncio do meu quarto, às tantas da manhã, quando a luz da peça 18 é a única acesa da Casa Suecia, já mal me lembro, tão curto foi o tempo que espreitei, desses dias que vi passar.

Das últimas semanas há quatro ou cinco datas que fixo como marcos e, em função delas, tento reconstruir a vida que por cá passou. Dia 14 de Outubro saíu de cá a Xinha; dia 26, chegou a mãe. De 27 a 30 estive na Ilha da Páscoa - honras de post próprio, talvez mesmo posts. De 31 de Outubro a 4 de Novembro mostrei Santiago à mãe e às Mafaldas, incluindo a noite à prima. E, para acabar, dia 8 de Novembro conheci Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, evento que também terá o seu post individual. [formalismo, claro, não vá o acaso trazer alguém da Presidência a este blog]

Ora, aparte as historietas que terão os seus parágrafos de destaque, o que é que se tem passado por aqui? Um pouco de tudo e um pouco de nada. Conhece-se mais pessoas, claro, mas o mais forte é aprofundar os conhecimentos que já se tem. Posso dizer neste momento que tenho cá amigos de todos os continentes. Excepção feita à Antárctida mas, de acordo com as discussões geográficas que vamos tendo (acontece em todos os Erasmus/intercâmbios?), há quem não a considere um continente.

Tenho alternado entre a vida de estudante, ao meu género - muito trabalho em casa e pouco nas aulas - e a de estrangeiro, passeando ao acaso. É dizer, lá tenho feito uns papers e umas redacções - todos com notas acima do 6, incluindo um 7 (igual a 20) e tenho ido a poucas aulas. Bom, agora é indiferente que não tenho mais aulas, só de Español. Nos mientras vou indo a umas fiestas e temos feito algumas, menos mas melhores, cá em Casa. Das caseiras é de destacar a Festa Sem Roupa/Máscaras/Eighties (pessoas houve que vieram só vestidas com coisas que não fossem roupa - toalhas, bandeiras, fraldas, etc. - outras de máscaras ao acaso e, outras ainda, de Anos 80). Fora de casa, voltei a La Piojera, essa tasquinha mais tradicional de Santiago e lar do terremoto (vinho branco com gelado de ananás), onde já tinha ido com a Xinha.

Com a mãe e as Mafaldas visitámos um pouco de tudo. Fui finalmente ao interior de La Moneda, o palácio do Gobierno de Chile, e ao Cerro de Santa Lucia, para além de ter ficado a conhecer o Santuário de Schoenstatt de Santiago. A acompanhar, boa comida em sítios óptimos da cidade como o Liguria, de novo, o Como Agua para Chocolate, e o Peperone, aquele das empanadas óptimas no Barrio Brasil. Resumindo, foi uma semana sem cozinhar. Ficou por ver a casa de Pablo Neruda cá em Santiago, La Chascona. Mas tenho tempo.

Em termos físicos, é de destacar o meu novo pelo. Cabelo rapado (patilhas fora, idem), se não me engano no dia 19 de Outubro que, entretanto já lá vai um mesinho certo, tem crescido com tranquilidade. Tenho procurado comer mais saudável, cozinhando - agora sim! - uma coisa nova todos os dias. Para ajudar à boa forma, abdominais e flexões todos os dias de manhã e à noite, que não há dinheiro para ginásio e o da Universidade é longe. Quanto a futeboladas, só hoje voltei a espalhar magia em canchas chilenas. Ah, antes fosse! Por falar em futebol, no dia 21 de Outubro assisti ao grande derby santiaguino, Colo Colo - Universidade de Chile, no Estádio Monumental. Experiência brutal ao lado dos hinchas do Colo Colo, ninguém se sentou o jogo todo. O bairro à volta do Estádio, que não se vê de fora porque é escavado no chão, esteve fechado por barricadas dos Carabineros. Controlo total, que não evitou desacatos e 20 detidos. Dentro das quatro linhas, o Colo Colo cedeu um empate caseiro a 2-2, tendo falhado um penalti e deixado a vitória escapar ao sofrer um golo nos últimos minutos. Quando tiver fotografias coloco num albúm dedicado a Santiago aqui ao lado.

O meu castelhano evolui seguro, com alguns chilenismos já dominados em conversas quotidianas. Nos próximos dias virá um post/dicionário das expressões próprias do castelhano chileno. Também estou com um inglês escorreito já que mais frequentemente do que volta e meia falo inglês com os "angloparlantes" cá de Casa. Tenho tentado praticar o francês sempre que posso mas tem sido difícil - só conheço um francês, o Benjamin, e ele gosta de falar espanhol. Depois há a Sanaa, a franco-marroquina do curso de Español, com quem falo francês via net. Mais as experiências com a Marine, em San Pedro de Atacama, e o francês que subiu comigo a la cumbre do Volcán Villarica.

Tenho tentado fazer o máximo que posso só que, embora saibam bem as tardes cá em casa com os meus "hermanos suecos", às vezes dou por mim com um sentimento de culpa, ou apenas medo, não sei, por não estar seguríssimo, sem dúvidas, se estou ou não a aproveitar ao máximo. É que já nos demos todos conta, está a acabar. O primeiro da "nossa geração" (Casa Suecia 2º Semestre 2007) a voltar para casa foi o Heider, brasileiro de Salvador da Bahía, no fim-de-semana passado. Não raras vezes é possível encontrar-me a olhar nostálgico para uma parede, um quadro, o céu, uma pessoa. Eu e todos. É que é fácil imaginar uma ampulheta a esvair-se, rapidamente, de areia, levando-nos a todos daqui para fora. O meu dia 100 foi esta quinta-feira, 15 de Novembro, e já só me faltam 26 dias em Santiago.

Para a família, em Portugal, são boas notícias. [serão?] O tempo esgota-se e eu sigo são e salvo, claro. E, num instante, vou estar em Lisboa. Eu, na ânsia de beber o que me resta de Chile, deixo telemóveis e mails de lado, excepto o da faculdade mas esse não o têm. Até evito o blog, ainda que tenha recuperado alguma constância. Comunico pouco com a família mas tento fazer saber que está tudo bem sempre que posso. Como no caso do terramoto de quarta-feira, em que eu, era meio-dia e tal, comecei a pensar em tremores de terra. Vim a saber mais tarde, tinha havido um no Norte do Chile, 7,7 na escala de Richter, e que está a afectar tantos sítios que conheci na nossa road trip tuga. Por sorte, as construções são mais sólidas que no Peru e não teve o efeito devastador que teve o de Agosto nesse país, ainda que quase tão forte. E, afinal, senti-o bater devagarinho cá em Santiago.

Aproveito as minhas viagens de transportes públicos, agora que já conheço os truques, atalhos, horários que não existem e as manhas dos autocarros da Transantiago e dos metros, para ler. Tenho lido muito, à média de um livro por semana, tentando guardar uns para a Viagem pela Sudamérica. Entre o que tenho lido destaca-se El jardín de al lado, de José Donoso, romancista chileno; O Poder dos Sonhos, conjunto de artigos de Luís Sepulveda, escritor revolucionário chileno; A Cidadela Branca, de Orhan Pamuk, turco Prémio Nobel da Literatura de 2006; e Viagens por um País Longo e Estreito, de Sara Wheeler, escritora inglesa que é paga para viver e viajar em países estrangeiros e escrever sobre isso. Rica profissão. Se alguém conhecer um editor que não seja nada exigente apresente-me que eu sou capaz de ficar por aqui. [pronto, agora arrasei o coração da família e da namorada]

Rapidamente, para quem quiser uma amostra do que se tem passado por estes em Santiago, onde a temperatura tem chegado aos 30º C e os índices de radiação solar aos 16, acima do nível máximo saudável que é 10, aqui ficam umas fotografias de uma das noites; é que normalmente não se tira fotografias enquanto se escreve papers, ou se lê um livro, ou se vê um filme, ou se come, ou... Bom, mas para fotografias de dia, para as poucas que há, esperem por uma nota minha a anunciar novos albúns aqui nos Retratos da Sudamérica.

[a mítica La Piojera]

[Andrés (Colômbia), Joaquín (Equador), Juan (Espanha), Manu (Portugal), Tuomas (Finlândia)]

[simbiose]

[numa sala a céu aberto, em casa do Pancho (Chile), tropecei e caí sentado ali;
ainda hoje tenho espinhos]

[Manu, Joaco, Juanito y Andrésito;
ah e digam adeus àquele cabelo, foi a última fotografia]

Enfim, numa frase, «vi, li, comi, bebi, brinquei, saltei, joguei, ri».

13.11.07

Ups and Downs

Porque a vida é feita de altos e baixos, também os meus meses em Santiago teriam de o ser. Os últimos três dias da Sanchinha cá não poderiam fugir à regra.

Faixa 07. Gorillaz - Dare

[música acelerada para o ritmo frenético dos últimos dias]


Down
Chegámos a Santiago à hora de ponta, na manhã de sexta-feira (lembrem-se que estamos a 12 de Outubro), vindos de Castro. O dinheiro era escasso, daí a opção por ir de metro para casa. Saíu mais caro. No meio do rebuliço, pessoas, barulho, muita tralha, cometi o erro fatal de deixar a mochila pequena às costas e o iPod no bolso do lado. Isto apesar de me terem avisado, ainda em Portugal, que o Metro de Santiago era um paraíso para os carteiristas. À saída dei pelos bolsos da mochila semi-abertos e soube logo o que se passara. Bom, quem anda à chuva molha-se e eu estava bem encharcado. De qualquer maneira, qual capitalista consumista privilegiado, já tenho um substituto trazido pela prima dos States, free of taxes.

Up
Prueba oral - mau espanhol, boa nota; digna de post próprio.

Down
Cansaço acumulado da viagem e pouco dinheiro obriga a noite caseira na mesma sexta-feira, para desespero da Xinha. Acabámos divertidos em Casa com os meus "hermanos suecos", mas podia ter conhecido mais de Santiago. Desculpa.

Up
O regresso a Valpo. Como garantira, voltaria lá. Para mostrar à Xinha aquilo que considero como o verdadeiro Chile. É que, do que conheço - que é pouco! - Santiago é muito europeu; San Pedro de Atacama demasiado turístico ainda que desértico; os Lagos bastante (daquilo que imagino que sejam) Alemanha, Áustria, Suiça; Chiloé tem algo de Irlanda, realmente; talvez só no caminho para o deserto tenha encontrado o mesmo verdadeiro Chile, mas Valparaíso tem uma energia e uma cor que se retém muito melhor na memória.


[a parede de um hostal de Valpo]

Do dia em si, foi pena termos saído de Santiago já tarde mas foi uma experiência completa. Andámos, qual povo de Valpo, para trás e para a frente de micro (bus), ascensores e a pé. Pelas ruelas sujas e vielas pintadas de novo, tudo cheio de sol. Menos energia no ar que da primeira vez, já que o Chile jogava nesse dia na Argentina (perdeu 2-0).


[Xinha, cor e luz]

Subimos ao Ascensor Artillería, o maior da cidade, por cima do porto e de onde se tem uma visão amplíssima da baía até Viña del Mar. Passámos pelas mesmas calles que eu já conhecia mas a magia, essa, continuava lá. Depois de subirmos (para mim, pela segunda vez) ao Ascensor El Peral, fomos até ao Concepción, provavelmente o mais conhecido. Para além da vista, tem uma série de cafézinhos impecáveis. Um deles será mesmo o melhor spot de Valpo, ainda que caro e turístico - o Café Turri, mesmo em frente ao Reloj Turri, onde bebemos um chocolate quente e comemos um croissant de salmão e alcaparras, ao pôr-do-sol. Classe.


[se não fosse por esta placa, não se dava pelo Ascensor Concepción no meio do turbilhão de Valparaíso]

Up
De regresso a Santiago no mesmo dia, a tempo da festa do Carlos, companheiro chileno cá de Casa. Lá fomos a um bar/discoteca e, Bellavista, sem pagar nada por termos o nome à porta. Classe, outra vez. Última noite, última rodada e último reggaeton para a Xinha, agora que já se tinha habituado.


[casalinho na noite]

Down
E porque toda a papa doce se acaba, a Sanchinha tinha de se ir embora. Ainda estávamos a fazer compras (de última hora, claro!) no centro da cidade e já estávamos cheios de saudades. É que por muito que isto das novas tecnologias nos aproxime a todos ao nível de transformar o mundo numa aldeia, ainda há muito por fazer. Está por vir - não virá! - o invento que recrie aquele abraço e que apague, enfim, a mais portuguesa das palavras, o mais tuga dos sentimentos, a saudade.

Faixa 08. Death Cab for Cutie - Lack of Colour

[ficar a ouvir baixinho;
a música que não acabei de ouvir no iPod, antes de o guardar na mochila;
a falta de cor de Santiago, depois de a Sanchinha se ir embora]

6.11.07

Parrillada 5

Ou quando a parrillada é uma feijoada à portuguesa e Santiago parece Lisboa.

Faixa 01. Mariza - Ó Gente da Minha Terra

Como já tinha dito, a Sanchinha lá veio de Portugal, dia 27 de Setembro, quinta-feira, ainda mal estava eu refeito da viagem ao Norte. Sem saber bem o que esperar, encontrou um namorado cheio de saudades, uma Casa Suecia que a acolheu como se fosse lá residente e uma cidade com os omnipresentes Andes como pano de fundo. Acho que gostou.

Antes que tivesse tempo de pensar muito nisso, já estávamos os dois a fazer compras a um sábado de manhã e de tarde para uma jantarada portuguesa. Problemas logísticos - o tomate pelado, que parecia não existir, as couves, que se chamam todas lechuga e não são iguais às portuguesas, os feijões, que só se vendiam num supermercado, caríssimos. E a falta de panelas em condições lá em Casa.

Apesar de tudo isto, parece que correu bem. As farinheiras e as morcelas que a Xinha tentou clandestinamente fazer passar deram o toque que faltava. Duas ideias acerca destas chouriças; uma, escrevi "tentou", porque foi apanhada, embora não lhe tenham feito nada (trazer alimentos crus para o Chile é proibido e multado com elevadas multas) - estava sozinha, é uma moçoila gira e tal, lá se safou e trouxe os ditos enchidos; segunda, infelizmente para os estrangeiros, os portugueses "abarbataram-se" à farinheira e à morcela e, tirando o Juan (espanhol), vão ficar sem saber a que é que sabe. Melhor assim, que talvez não apreciassem, ou pelo menos não soubessem apreciar. De qualquer maneira, foi muito gabada e ouvi mesmo dizer "mejor que la brasileña" (até por brasileiros ehehe).


[Sector tuga 1;
Xinha, Tomáz, Gonçalo M., Luís, Miguel]


[Sector tuga 2; (da esquerda em cima, no sentido dos ponteiros do relógio)
Bernardo, Diogo, Carolina ("turista"!, não estuda cá), Gonçalo C.]


[Sector internacional 1;
Rafaela (Brasil), Carolina, Lúcia (Brasil), Corina (Venezuela), Deborah (Brasil), Marta (Brasil), Ella (Alemanha), Heider (Brasil)
+ Michaela (Áustria), ou Mica, em plano de fundo]


[Sector internacional 2;)
fila de cima - Joaquín (Equador), Corina (Venezuela), Amanda (Chile), Daniza (Chile, ex-residente);
fila do meio - Karla (México), Andrés (Colômbia), Nohemi (México), Marta (Brasil;)
primeiro plano - Rafaela (Brasil), ou Rafa]

Depois dessa noite, a primeira que levou a Xinha a conhecer a noite de Santiago, no Sala Murano, e o reggaeton, algumas notas de registo da semana seguinte, em que a mantive "presa" em Santiago.

Faixa 02. La Secta feat. Eddie D. - Locura Automática

Domingo, dia 30 de Setembro, foi data da primeira Copa Intercontinental de futebol feminino, da Casa Suecia. Fui treinador - embora um pouco ausente - da equipa Europa. Nestes amigáveis costuma dizer-se que o que fica para a História é o convívio (para não ter que se dizer que a nossa equipa perdeu por 4-2 ou 5-2).


[As jogadoras;
fila de cima - Sarah (Alemanha, ex-residente), Corina (Venezuela), Mica (Áustria), Marta (Brasil), Britta (Alemanha), Ella (Alemanha), Deborah (Brasil);
fila de baixo - Susana (Equador), Joana (Portugal, não mora cá mas gostava de morar... ou não), Griselda ou Gris (México), Karla (México), Nohemi (México), Elizabeth ou Eli (Áustria, ex-residente), Rafa (Brasil)]

Duas pruebas, uma do Seminário de Contratación Internacional (em inglês), na segunda-feira 1 de Outubro, e outra de Derecho Procesal Penal, sexta, 5. A primeira correu muito bem, o que não se pode dizer da segunda. Não estava à espera de um teste de escolha múltipla em que as perguntas se repetem, umas com hipóteses de respostas quase iguais e outras mesmo iguais. Ou seja, se formos coerentes com as nossas ideias ou acertamos uma data de perguntas que dizem ou mesmo ou falhamos todas elas. A opção alternativa era "jogar no totoloto" - responder ao calhas. Tentei fazer aquilo certinho e coerente, vamos ver no que dá. Ah, outro pormenor, podia comentar-se as respostas que se dava, o que aproveitei para fazer e, já agora, criticar também as perguntas. Tenho um feeling que esta lata de estrangeiro é capaz de não me ajudar muito. Hummmmmm.

Finalmente conheci algumas partes essenciais de Santiago - e turísticas também. Como Bellavista e o Cerro San Cristobál. E aproveitei para iniciar uma foto-reportagem de Santiago que vou colocar nos Retratos aqui ao lado "al tiro" (chilenismo para muito rápido, já já, de seguida).


[a Sanchinha e o "seu" nacionalismo chileno]


[no Parque da Avenida Providencia, que faz parte da artéria principal de Santiago]


[uma casa na calle Pio Nono -link, no Barrio Bellavista, bairro boémio de Santiago]


[vista do Funicular do Cerro San Cristobál, mientras subindo]


[no alto do Cerro, ao pôr-do-sol;
this is what Santiago is all about]

Na sexta-feira, 5 de Outubro, feriado em Portugal e eu em pruebas, acabada a prova de Procesal Penal, e enquanto a Xinha estava nas compras - óbvio! - enfiei-me numa igreja (a Iglesia de S. Francisco de Assis, edifício colonial mais antigo de Santiago), no centro da cidade, ao pé da faculdade. Enquanto a visitiva começou uma missa, e assim foi que tive a minha primeira eucaristia no Chile. A repetir, noutras igrejas melhores e mais jovens.

Nessa noite, nova saída de Santiago, para Pucón, no Sul. Como já deu para perceber pela descrição da road trip das Fiestas Pátrias, no Chile as distâncias mede-se em horas. No caso foram onze, em mísero serviço Classic da TurBus.


[no "táxi-vaca", a caminho do terminal de buses]

3.10.07

I. Santiago p'ra trás das costas


«Digo-vos já, esqueço-me sempre de qualquer coisa», digo, sincero, para o Mico e o Chico. Desta vez, foram os cd de música. Passei a ouvir novos sons, foi o que foi, e revivi outros esquecidos.

A 50m, ao dobrar da esquina, estava à nossa espera o jipe. Suzuki Grand Vitara, verde escuro, poucos kms. Se navegar foi preciso, agora é guiar. Para Norte, vamos.

Burocracias e pagamentos, despachados da Bilbao Rent-a-Car, esperava-nos esse Norte, mas não ainda o deserto. Primeiro La Serena, na costa. E esperava-nos o outro jipe, já saído mais cedo. Um Suzuki, também, mas maior e cinzento, já com 6 portugueses entusiasmados - "num excitex"?! - com a perspectiva de descoberta desse grande e desconhecido Chile.

Por cá seguíamos quatro - Mico, Chico, Diogo e eu. Eu de directa, que a noite antes tinha sido de despedida dos vários grupos da Casa. "Despedida"; porque separámo-nos em grupos apenas pela semana das Fiestas Pátrias. Em 8 dias estaríamos todos juntos, mas como irmãos que somos até vamos sentir a falta uns dos outros.

Algumas palavras para estas Fiestas Pátrias. São vividas, e sinceras. São vividas, porque aproveitam para juntar dois feriados seguidos e, porque não, toda uma semana para descansar e/ou viajar. Este ano, quatro milhões de pessoas saíram das suas cidades - mais de dois milhões de Santiago - durante estes dias, alguns de sexta a quarta, outros de sexta a domingo. E sinceras. A bandeira é omnipresente, lavada e orgulhosa. Não como uma bandeira que se deixa de um evento desportivo para outro, com dois anos de diferença, já rota e descolorada.

Mas sigamos, que p'rá frente é que é o caminho. Paragem em Los Vilos, já junto ao Pacífico, para jantar. Bom pollo asado con papas. Algum cansaço e alguma tentação para ficar por cá a dormir. Mas os outros já estão em La Serena e esta já está aqui tão perto.


[de barriga cheia, fazermo-nos à estrada; Chico ao volante e Manel como co-piloto/fotógrafo, Mico e Diogo enjoying the trip lá atrás]

Lá vamos, e lá chegamos. Cansados, mas não todos, que há quem aproveite para ir sair. Tugas a varrer a noite da cidade serena. Eu não, não fui dos duros. Bastou-me uma directa, uma visita à embaixada de manhã, fazer a mala, esquecer-me de coisas e fazer quatrocentos e tal quilómetros. Para primeiro dia de viagem já foi comprido. E o caminho ainda se abre mais para Norte, quero aproveitá-lo todo.


[chegada a La Serena; luz, ainda que desfocada, ao fim da primeira estirada]

26.9.07

30 dias

Um estrangeiro com visto de permanência no Chile tem 30 dias para pedir a Cédula de Identidad, ao qual corresponde um número - o RUT. Se não, é expulso.

Não, não é. Tem é de ir a um Ministério em vez de ir ao Registro Civil apenas. Se calhar até era mais rápido. Hummmm... Adiante.

Estávamos a 7 de Setembro. Fazia 30 dias certos que tinha chegado. Já tinha despachado o registo do meu visto na Policia Internacional, pelo que pude seguir directo para o Registro Civil. Ainda bem, era já uma da tarde e todos os serviços públicos fecham as duas cá.

Vá de correr para o autocarro com dois pacotes de Nesquik na mão. O 501 deixa-me no centro e depois é coger a Calle Moneda para Oeste. Não há muito tempo para pensar, deixa-se o telemóvel e uns trocos em cima da mesa. Que venha a carteira e o passe, e umas notas para pagar o visto.

O sol bate de chapa no autocarro, as pessoas vão de espírito solto e sorriso convidativo. Até parece que é fim-de-semana de Verão tal a alegria e o calor que pairam no ar. Apesar desta leveza, as pessoas estão concentradas a ouvir a radiola que o motorista leva lá à frente, aos altos berros, com o som já distorcido. A selecção chilena de futebol estreia-se hoje sob o comando de Marcelo Bielsa, argentino duro, em quem os chilenos confiam que ponha ordem no balneário e a equipa a jogar futebol. Isto depois do escândalo alcoólico, sexual e de indisciplina em que se tornou a eliminação do Chile na última Copa América.

Quando entrei no autocarro sabia que o Chile ia a ganhar, depois da festa que os vizinhos fizeram com o golo. A meio da viagem a Suiça empata. Da maneira que os narradores chilenos noticiaram o golo parecia que queriam que El Loco Bielsa se estreasse a perder, como todos os técnicos da selecção chilena que fizeram o seu primeiro jogo no estrangeiro. Mas não. Golo, cá, é golo, é festa, seja de quem for.

O ânimo não foi muito afectado. De roupa ligeira e cara descontraída seguiram as pessoas. E eu também, porque não?

Lá chego ao registo. Faltavam fotocópias (vá lá que levava os documentos todos!), «y va al tiro que sólo tiene diez minutos antes que cerremos». Lá fui tirar - custavam 120 pesos (cerca de 18 cêntimos), e eu só levava uma nota de 10 lucas, quase 14 euros. Fiquei a dever. Boa hospitalidade chilena, a paz de alma prossegue hoje.

Na hora e vinte que fiquei de pé na filinha ziguezague - aqui e nos bancos não há senhas - deu para ver o fim do jogo. 2-1, ganhou a Suiça. El Loco não quebrou a tradição e a estreia da nova Roja não correu bem. Haveria de ganhar, uns dias depois, à Áustria. No final, noticiário da tarde. Notícia seguinte à da selecção - Maddie. É impressionante as manchetes de jornais e o tempo de antena que tem ocupado o desaparecimento/falecimento da Maddie no Chile. Ninguém, cá, acredita que os pais tenham alguma coisa a ver mas, na televisão, a polícia portuguesa dá a mãe como suspechosa.

Lá me atendem, simpaticamente. Tiram-me a fotografia com as máquinas digitais ligadas aos computadores. Até a assinatura é digitalizada por uma máquina. Tudo do melhor. Lá me rio para o passarinho e o ar de parvo é notório. Depois tiram-me as 10 impressões digitais - não uma. Parece sensato; para quê só o polegar direito se podes ter todos? Entretanto sou filmado para alguma coisa - estrela de documentário no Chile? Não sei se quero, tenho de ligar ao meu agente. Bom, lá me dão o RUN, papel e números prvisórios do RUT (que vou buscar amanhã, 27 de Setembro), e ponho-me a andar, cheio de fome e sede.


[ar de parvo a rir; olho esquerdo meio aberto meio fechado]

Qual turista, tinha levado o guia - sim, este mesmo - para me entreter enquanto esperava. É que homem prevenido vale por mil e quinhentos, diz este senhor. O Barrio Brasil é mesmo aqui ao lado. O que é se passa aqui? Bairro calmo de dia, com o centro na Plaza Brasil; boémio de noite, com a discoteca Blondie a marcar o ritmo. Avisado pelo fiel Planeta Solitário, páro no Peperone, na esquina da Plaza Brazil, onde como as melhores empanadas que já comi no Chile - uma de espinacas e outra de queso camarón, regadas com uma Kuntsmann Lager. A decoração é de café boémio, perdido em cidades europeias dos meados do século passado. Paris, talvez. Hei-de lá voltar para tirar fotografias.


Daqui sigo a pé até ao centro, Santa Lucia, o que ainda é bastante. Apanho o metro, e como se não estivesse cansado, ando mais uns kms desde a estação de Pedro de Valdívia para minha casa. Não sem antes passar numa livraria simpática, na Av. Providencia.

O trigésimo dia não teve uma trigésima noite. Ou melhor, teve, mas foi em casa a ver filmes, descansadinho, com um copo de vinho e pipocas. Há coisas que até combinam. Como Santiago e eu.

PS - os caminhos e os sítios referidos neste post já estão identificados no mapa de Santiago aqui ao lado; dêem uma olhada

Dor de garganta

Tal era o fenómeno na Londres industrial, que os ingleses lhe deram um nome. A mistura de fumo e nevoeiro (smoke e fog) é, agora, smog (e não fumo e fogo, como abreviei aqui). Basta procurarem na Wikipedia que logo surge que um dos exemplos de smog mais intensos a nível mundial é Santiago - névoa seca é o termo técnico em português, aparentemente. Aos escapes dos carros junta-se o efeito de Foehn, a acumulação de vapor de água junto às encostas de montanhas, ainda que um qualquer nevoeiro matinal servisse. Com tudo isto, o ar em Santiago torna-se irrespirável para quem ambiciona pulmões limpos, puros e abertos. Ou seja, ao fim de uma semana cá, surge a inevitável dor de garganta, e tosse.

E a isto se junta agora o pó do deserto, que se infiltrou em todos os poros do meu corpo durante a semana passada.

Pastilhas para a garganta, procuro nas farmácias. O primeiro pacote que comprei parecia uma embalagem de Werther's Original (sim os tais do avô e do neto), mas de mel - ok, pareciam mais Halls de mel, mas tinha mais piada se fossem Werther's. Resultaram por uns dias - ainda não tinha ido ao deserto. Round 2, agora numa farmácia com melhor aspecto, lá me dão umas pastilhas mais ao estilo da Mebocaína. Ok, funcionaram enquanto duraram, mas agora já não há mais, e a garganta até já está inflamada, a ameaçar a fechar - comer, engolir, falar é um suplício. Sobra-me o chá a ferver com mel, e uns anti-inflamatórios, postos discretamente pela mãe, qual anúncio da Cêgripe, na farmácia que trouxe para cá.



[imagem de Santiago, com os Andes sufocados pela poluição;
nota - o edifício em primeiro plano da direita é onde fica o consulado de Portugal]

Lusco-fusco em Santiago

Uma destas quartas-feiras - 5 de Setembro, creio - fui dar uma volta por Santiago, ao atardecer. O Juan queria ver o centro e ver a roupa em segunda-mão da Calle Bandera (de que já falei aqui, e sobre cujas lojas principais, que afinal há por toda Santiago, podem saber mais acolá) e eu tinha prometido a mim mesmo que ia aproveitar as oportunidades que tivesse para ir mais vezes para esses lados. Afinal, era mais um dia de caña com pouco para fazer.

Percurso simples, apanhar o 501 na esquina da Suecia com a Bilbao e sair junto ao Palácio de La Moneda, o palácio do Governo. A pé, passar pelas peatonais como a Ahumada, coger a Bandera e chegar à Plaza de Armas (nota - todas as cidades chilenas têm uma, ou quase).

Aqui, à parte da envolvência da Catedral Metropolitana de Santiago e das palmeiras, das estátuas e das galerias de comida, vive-se um outro ambiente. Primeiro, passa uma pequena procissão, com gente de todas as idades e de todos os estratos sociais. Depois, como que programado para entrarem na praça depois de seguir a procissão para outros caminhos, surgem jovens com ar politizado, quanto mais não seja para chatear os pais.

São as Juventudes Comunistas Chilenas, numa das manifestações do seu 75º aniversário. Ao lado, um grupo de skinheads. Tremo de confusão, ou de pensar que vai haver confusão. Afinal não. São os Skinheads Antifascistas. Comemoram o falhanço de um golpe de estado fascista no Chile, há décadas atrás. Chego-me para trás, cansado de tanta mudança num espaço físico e temporal tão curto, tudo à porta da velha Catedral. O Juan fica por lá, pelo meio, tira fotografias - melhores que as minhas - tenta saber o que se passa, faz amigos.

Está na hora de abalar. Coger a Ahumada para Sul e meter-nos no metro. Estou podre.


2.9.07

Mais um fim-de-semana mais caña

Sábado caseirinho que passou, aproveito para ver filmes (entre eles o quarto do Harry Potter - o cicatrizes persegue-me pela Sudamérica), ir às compras, actualizar e desenvolver o blog.

A propósito, reparem nas novidades do lado. Albúns de fotografias, em Retratos da Sudamérica, e Mapas do Google Earth dos sítios por onde vou passando, sob o título Por el Suelo. Fotografias, para já, só de Valparaíso e mapas com alguns, poucos, sítios de Santiago e Valparaíso. À medida que o tempo passe vou actualizando os albúns e os pontos de referência.

Amanhã é dia de arrumar a roupa - que lavei e sequei ontem (sexta) - e fazer um trabalhinho para o Seminário de Contratação Internacional. Ah e ainda não engomei as camisas!

Espírito de protesto

Parou tudo. A faculdade envia vários mails - «A faculdade encerra as suas actividades às 16h»; «Afinal encerra às 15h»; «Não, último aviso, a partir das 13.30h todas as actividades académicas cessam». As pessoas evitam andar de transportes, com medo de paralisação. Os jornais fazem manchetes e não se fala de outra coisa. Quarta-feira, 29 de Agosto, é dia de protesta. A CUT - Central Unitaria de Trabajadores - marca greve geral nacional. De uma forma global, pelo descontentamento com a Presidenta (cá dizem mesmo assim) Michelle Bachelet, da coligação La Concertación, que agrupa partidos sociais-democratas (esquerda moderada) e democratas cristãos (direita moderada).

O Chile vive, social e politicamente, num equilíbrio ideológico entre a esquerda quase-revolucionária e o Cristianismo. Tudo isto, obviamente, é deixado de lado com a necessidade de se adaptar a um mundo capitalista e, assim, o Chile tornou-se uma economia neoliberal, que lhe permitiu, nestas quase duas décadas de democracia, tornar-se a economia mais desenvolvida da Sudamérica.

Por esta viragem capitalista, nenhum presidente, mesmo que originário da esquerda - como é o caso de La Presidenta - terá sossego. Não sei se as manifestações são frequentes mas são mediáticas, pelo menos.

Como é óbvio, havia alguma excitação entre os estrangeiros para ver a manifestação. Uma coisa diferente, ver o povo na rua, a luta. Ainda mais se estamos na Sudamérica, continente historicamente revolucionário.

Eu, por acaso, tive de ir à faculdade entregar uma coisa e fui mesmo em cima da hora em que ia fechar e notei que havia menos movimento, em geral, como se fosse fim-de-semana. Como a minha faculdade é mesmo no centro - ver mapa de Santiago ao lado - pensei que ainda pudesse ver qualquer coisa, mas sem grande expectativa. À saída, aventurei-me um pouco mais para Este. As lojas fechavam as portas e reforçavam as entradas das lojas com grades de metal, como se preparassem para um motim e não uma marcha de trabalhadores. [curiosamente, os falantes de inglês cá de Casa referiam-se ao protesto como riot e não demonstration] Nas margens das ruas muitos jovens reuniam-se em grupos e gente com ar claramente não andino sacava de máquinas fotográficas. Estava no olho do furacão, portanto.

Calmamente, dou por mim a atravessar a Alameda, a avenida principal, sem perceber que as pessoas se mantinham junto aos prédios. O trânsito fluia bem, com poucos carros, mas sem estar cortado.

E então aconteceu. Pedras começam a chover. Lá percebi porquê, um carro dos Carabineros - «pacos», chileno para bófias - atravessa a rua no mesmo sentido que eu. Vá de fugir para o metro, enquanto os canhões de água varrem os passeios. Jovens, de kefieh (lenço árabe, à Arafat) a tapar a cara, escondiam-se nas esquinas enquanto recolhiam pedras. Afastei-me do perigo e pus-me a observar a situação por uns minutos desde a entrada para o metro. Mais polícias se reuniam - não vi, mas chegaram a utilizar gás lacrimogéneo - e espalhavam-se pela Alameda e perpendiculares em busca dos protestantes.

Tudo isto porque a manifestação não tinha sido organizada pelo governo, tendo a polícia ordem para destroçar qualquer tentativa de protesto nas ruas. E também porque a manifestação foi pequena - só reuniu cerca de 4000 pessoas em Santiago (cidade com 6 milhões) e 450.000 no país inteiro - necessitando da intervenção de jovens anarcas para ganhar mais mediatismos. Saldo final; 600 pessoas presas em todo o Chile e um senador agredido por um polícia, quando quis passar com uma multidão, esta sim pacífica, por uma barreira da polícia.

Calmamente, pus-me no metro e lá fui a um centro comercial catita procurar a Constituição para a prueba de sexta e comer uns crepes.

Nessa noite, ensaiámos na Casa a nossa pequena manifestação. Tínhamos feito um abaixo-assinado protestando contra as condições da Internet e ameaçando não pagar a próxima mensalidade respeitante ao acesso à net nos quartos - 10 lucas, pouco mais de 14 euros - e a Carmen, a senhoria, veio cá para falarmos com ela e com o Alfredo, marido e homem dos computadores. Nada feito, a culpa é nossa que fazemos downloads, etc etc etc. Vai daí votou-se a favor do bloqueio de downloads, com efeito daqui a uma semana. Agora para tirar músicas da Internet só comprando no iTunes ou isso.

Cansado de tanta revolução, ou pseudo, fui dormir cedo com (mais uma) ligeira sensação de nesse dia ter perdido um bom momento para andar com a máquina fotográfica. Deviam inventar uma máquina que se incorporava na retina e era só piscar os olhos. Daí seriam directamente enviadas para o nosso mail. Não sei como é que nunca se pensou nisto.

28.8.07

Dois donuts e um chocolate quente

Na esquina da Providencia com a Las Urbinas há um Dunkin' Donuts. Lá dentro, resguardado da chuva de Santiago, numa qualquer sexta-feira, está um rapaz moreno. Lê o romance El jardin al lado, de José Donoso.

Se estiverem por Santiago numa tarde chuvosa de Inverno passem por lá e metam conversa. Pode ser em português, claro.

10.8.07

O primeiro susto...

Estava eu cogendo la calle...

« stin, stan, stin, stan, ziiiiinc »

...um camião de caixa aberta de transporte de gás deixa cair uma botija.

Podia ser em qualquer dia em qualquer lado mas tinha de ser no meu segundo dia em Santiago.



9.8.07

Mergulhar em Santiago

Frio. Inverno. Os caminhos tristes, iguais em quase todo o lado, do aeroporto Artur Merino Benítez ao centro de Santiago. Nota-se a extensão, tipicamente sudamericana, dos bairros de lata suburbanos. Há a preocupação de os iluminar bem. Não podendo realojar todos, dá-se um mínimo de condições de segurança.
A Casa Suécia...uma república...difícil de entender a casa, as pessoas, o espanhol. Alguma dificuldade em penetrar, em sentir o espírito. Foi por pouco tempo, também, menos de um dia.
De manhã, la ciudad. Os transportes públicos, a curta distância entre o centro, lojas, rebuliço, pessoas arranjadas, para uma que zona que nem sequer chega a ser periférica, mas que transpira desigualdade social latino-americana por todos os poros. Tratar da papelada. Policia Internacional e Registro Civil. Funcionam como funcionava Portugal antes das Lojas do Cidadão. Nem bem nem mal, faz-se o que se pode, com as pessoas que se tem. Mas com completa informatização, e webcams para tirar fotografias logo nos registos. E fui eu deixar 1000 pesos para tirar 5 fotografias... (desfocada pela minha máquina)
É verdade, os câmbios. O euro vale cerca de 700 pesos. Essas são as contas que faço para facilitar, porque no aeroporto venderam-me a 682 pesos. Andar a pensar que o euro vale mais do que vale ainda me vai fazer gastar mais dinheiro.

A economia está desenvolvida. O centro da cidade, o das lojas, cheio de armazéns (Paris, Panoramico, Falabela, ...), podia ser o de qualquer metrópole europeia. Mas lá está, com um pouco de atenção repara-se no uso de expedientes para amealhar o máximo que se pode. Aqui vende-se guarda-chuvas, ali amendoins com mel quentes, na entrada do metro promete-se o desvendar do futuro, dentro do autocarro toca cavaquinho um europeu de aspecto, mas que afinal é do Peru - desculpem o preconceito mas não tinha poncho nem ar de descendente dos incas, o lama perdoa-se porque estava dentro do autocarro.

Ah e ali no meio da rua já se vende, totalmente forjado, se tiver alguma coisa escrita mesmo, o Harry Potter y las Reliquias de la Muerte. Apetece perguntar, eh él muere en ese también?