7 Meses na América do Sul

A PUC de Santiago, o Direito chileno, o pisco e as empanadas, os Andes, o Pacífico, a Sudamérica, Rapa-Nui ... enfim, La Libertad.


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5.2.08

Sugando o tutano da vida

Preferes esta vida de campo e montanhas, dormir numa tenda e cheirar mal, ou a vida da cidade, de bifes e vinho, roupa arranjada, perfumes e discotecas, como em Buenos Aires?


Por muito que tente näo sei dizer ao certo. Sempre tive um fascínio enorme pela natureza, mar, montanhas, ar livre, deserto, tudo. Só que uma coisa säo as imagens que criamos na nossa cabeça desde pequenos, pelas fotografias que vemos e os passeios e aventuras que vamos tendo. Entrar de cabeça na vida de ar livre só aos 10 anos, quando comecei a fazer campos de férias. E mesmo aí a experiência era diferente e aquilo que retirávamos e nos marcava era muito mais o contacto com outras pessoas do que com a Natureza.

Entäo, porquê decidir por a mochila às costas e ir ver o que escondem as florestas e os lagos, a chuva e o vento, a montanha e as trilhas de Torres del Paine?

[4 a 8 de Janeiro de 2008]





DIA 1 - 4 de Janeiro de 2008
Laguna Amarga - Camping Serón (10 kms)

O peso da mochila, em que carrego a comida para os nossos cinco dias, e a falta de ritmo das pernas e dos pés fazem com que a primeira hora seja dolorosa. Näo ando, näo faço trekking ou hiking; arrasto-me. Os gémeos e os músculos da canela pesam-me e o Bessa já segue disparado, uns 20 metros à minha frente. Pouco a pouco, deixo o ambiente envolver-me e começo a esquecer as dores. O contraste na vegetaçäo demonstra bem o que passa comigo; ao seco e queimado dos restos de árvores em cinza do incêndio de 2005 opöe-se a nova relva, verde forte, e os malmequeres e margaridas que däo cor ao caminho.

Decidíramos, já na entrada do Parque, fazer a parte näo turística, näo comercial. Em vez de fazer o W, a parte Sul, iríamos começar pelo Norte, pela parte de trás do Circuito completo. Sabíamos que era mais comprida, mais exigente, mas pelas informaçöes que tínhamos recolhido era mais Natureza e menos pessoas.

Na verdade só nos cruzamos com um casal que termina o Circuito por onde nós começamos. O resto, como os dois casais de argentinos e canadianos, que saem connosco, näo chega para fazer um grupo de mais de 40 pessoas. Entre eles está um grupo de letöes com um autêntico batalhäo de guias, antipáticos por acaso (à excepçäo de um que parece o irmäo da Goinha). Mais uma vez, devemos ser os mais novos. Somos também os que têm as mochilas mais pequenas. As grandes ficaram em Puerto Natales. As pequenas estäo atulhadas - a do Bessa com roupa, coisas de higiene e a cozinha que alugáramos, com panela, frigideira, pratos, talheres e, claro, bico de fogäo e garrafa de gás pequenos; a minha com os mantimentos (arroz, massa, salsichas, atum, maionese, linguiças, papas de aveia para o pequeno-almoço, bolachas, chocolates, entre outras tralhas). A tenda leva-a ele que tem a mochila mais leve.

Chegamos ao acampamento no tempo estimado pelo mapa que nos deram ao entrar no Parque Nacional, quatro horas e meia. Estamos cansados mas isto ainda näo é nada. Já há muitas tendas montadas e nós, com desembaraço, pomos a nossa de pé. Estamos cheios de confiança nas nossas capacidades para lidar com a montanha, inspirados pelo vento que corre e pela água que corre no rio por trás do camping. Fazemos o nosso primeiro jantar - uma feijoada enlatada com arroz e linguiça, depois de um creme de frango. Na mesma caneca bebemos um chá com pisco para aquecer.

Pouco depois, ainda no lusco fusco (apesar de serem onze da noite) já nos estávamos a deitar. Nessa primeira noite havia de acordar muitas vezes a meio da noite, procurando furiosamente a lanterna para verificar se o duplo tecto näo tinha voado. O vento uivava, abaulando a estrutura da tenda até ela ficar de lado. O Bessa dormia e ressonava alegremente ao meu lado (haveria de me jurar que se fartou de acordar e que quando o fazia quem dormia era eu). Lá resistiu, rija, pronta para mais. E nós a termos de nos habituar que näo estávamos ali para ser fácil.


DIA 2 - 5 de Janeiro de 2008
Camping Serón - Refugio Dickson (19 kms)


Acordamos resignados com a noite mal dormida mas pouco preparados para o pequeno-almoço de papas de aveia em água fria. Como no dia antes, os músculos das pernas respondem mal aos primeiros quilómetros, ainda para mais por uma subida a pique, em montanha sem vegetaçäo. Torrando ao sol, lá a ultrapassámos para fazer o resto do troço sempre junto a um lago, azul claro, com as montanhas nevadas por trás.

Os 19 kms säo mais duros do que pensávamos, com subidas e descidas frequentes, acabando com um trilha em pântano. Ao avistarmos o Refugio Dickson, do alto de uma montanha, sereno com as cabanas de madeira numa orla de relva protegida do frio do lago por um bosquezinho, ficou claro que näo passaríamos dali. A última descida para o Refugio confirmou a ideia, sendo um slide gigante em pedra solta, a derrapar de dois em dois metros.

Montada a tenda, mais estável que na noite anterior, decidimos por o fato de banho (que, com o canivete, é um objecto indispensável em qualquer viagem, seja para o deserto, ou a um dos Pólos) e arriscar um mergulho no lago. Foi bom para a circulaçäo, mergulhar em água a menos de 10 graus, mas tirando o orgulho e a prova de virilidade, näo se pode dizer que tenha sido uma experiência agradável.

Nessa noite, outra vez a tenda é posta à prova, por chuva que näo parou de cair. Voltamos a ter sonos intermitentes e desencontrados; mesmo assim muito mais tranquilos com a estabilidade da nossa barraca.


DIA 3 - 6 de Janeiro de 2008
Refugio Dickson - Camping Los Perros (9 kms)


O cansaço, apesar de uma tarde inteira de descanso, cai sobre os nossos ombros e deixa-nos mal dispostos. Guardamos a vontade de praguejar para cada um de nós, näo vá afectar a moral dos dois.

Os primeiros trinta minutos, de subida inclinada, deixam-nos ainda pior. Animamo-nos por saber que somos dos primeiros a sair do acampamento e que estamos a andar ao ritmo dos guias. Um deles, míudo argentino de nombre Ricardo, ajuda-nos a dar mais uma machadada no nosso plano. Deveríamos chegar nessa tarde ao Campamento El Paso, passando a parte mais difícil de todo o Parque - o Paso John Gardner - ao fim da tarde. O Ricardo diz-nos que ninguém fica nesse nem no seguinte - o Los Guardas - porque "no pasa nada". Decidimos segui-lo e ficar no Camping Los Perros. Foi assim que ficámos a conhecer a noçäo de tempo na América do Sul, já que a certa altura começa a dar pontos de referência e a assegurar que só faltariam 40 minutos e depois 10, "después del puente". Obviamente, andámos mais duas horas e meia.

O céu, cinzento e frio, muito pouco acolhedor, näo permitia sequer adivinhar a hora quando chegámos ao último marco antes do Camping - o Glaciar Los Perros, o nosso primeiro contacto com um glaciar. Sem ser especialmente grande, ou bonito, com uma laguna de água suja de terra por baixo, impressiona-nos pela solidäo congelada a que a sorte, a evoluçäo da Terra, Deus, algo lhe destinou. Um barulho ensurdecedor, de origem desconhecida, quebra o silêncio de tempos a tempos, sem ser possível identificar a sua origem. O glaciar, que ruge por dentro? O vento, a uivar nas fissuras do gelo? Um aviäo por cima das nuvens, que näo se vê? A nossa imaginaçäo?

Refeitos do impacto do azul gélido do Glaciar ultrapassámos os últimos obstáculos, montanhas de pedra que nos obrigam a dar passos lentos, mas seguros, para näo resvalar. No fim de uma, contornada junto ao rio, que corre fresco e forte, encontramos o pinhal onde o Ricardo já montava a tenda e descarregava a mochila, cheia de comida para os turistas. Trinta quilos para um casal de americanos, hikers habituais, que faziam o que nós trilhávamos ao dobro da velocidade.

Chegados à hora de almoço temos tempo para tudo. Montar a tenda, tomar banho - só o Bessa é que tomou, seguindo a ambiçäo de ser eleito Miss Torres del Paine, eu fiquei-me por lavar o cabelo, já cheio de terra e pastoso - comer qualquer coisa leve, com uma Coca-Cola comprada no Camping, secar roupa, dormir uma sesta. E acordar e jantar, o mais caprichado possível; arroz de atum com molho de tomate e ervilhas oferecidas por uma família sudamericana, pais e dois filhos, que fazia o mesmo caminho que nós, acompanhadas de uma lata de sardinhas ensopadas em tomate.

Já atacados por mosquitos ainda tivemos que dar uma volta para näo deixar o nosso pitéu atolado no estomago durante a noite. Lá nos resignámos a ir dormir, no chäo húmido, sem encontrar posiçäo. Ao menos, protegidos pelos pinheiros altos, näo tivemos chuva e vento que nos perturbassem a noite antes daquele que viria a ser o dia mais cansativo e, por isso mesmo mais libertador, da nossa viagem.


Dia 4 - 7 de Janeiro de 2008
Camping Los Perros - Lago Pehué (33 kms)


Para estarmos de saída às 7.40h da manhä, implica que nos levantámos, mais hesitaçäo menos hesitaçäo, uma hora antes. Foi o início do sofrimento. Sobre-agasalhados, ainda meio dormidos, pouco reconfortados pelo nosso pequeno-almoço de papas de aveia, passou por nós o tal casal de americanos que viria a confessar-nos que quando nos viu de manhä näo acreditou que conseguíssemos chegar ao fim do dia.

De calças ensopadas até aos joelhos, os sapatos num chlap-chlap constante da água que acumulavam, fizemos os primeiros quilómetros em subida de lama, o Bessa nos seus 50 metros habituais à minha frente. A certa altura, já sem os casacos, suplicávamos por outro tipo de trilha quando a floresta desapareceu e mostrou-nos enfim o que tínhamos de mais duro pela frente. Montanhas inclinadas de rocha solta, com bocados de neve e ribeiros a escorrer. A cada 50 metros, bandeiras cor-de-laranja indicavam o caminho, deixando total liberdade a cada pessoa para escolher a sua rota entre elas. De Ipod ligado, a música puxando por nós, seguimos separados, sozinhos, sem trocar palavra. O céu näo dava tréguas e o vento trazia até nós chuva, curta mas cortante na cara. Resistíamos bem, devagar, olhando sempre para cima em busca de um fim que parecia näo chegar.

No último assalto à montanha ouço gritar lá de cima, "Libertei-me". Libertávamo-nos a cada passo, ultrapassando aquilo que julgávamos ser os nossos limites, bebendo água das fontes que brutavam puras entre as rochas, olhando sempre para cima com um sorriso na cara. Cantávamos a plenos pulmöes, ou naquilo que os pulmöes permitiam, e seguíamos.

A chegada ao Paso John Gardner em si é daqueles defining moments, que os estadounidenses tanto buscam na vida. A imagem das montanhas com neve no topo bordejando lagos e florestas, terminando num monte rochoso, por trás das nossas costas, com o Glaciar Grey visto de cima, gigante, branco com laivos de azul, frio, impassível perante o tempo e os pequenos Homens como nós que se sentem realizados por ali estar. Näo somos nada, ao lado daquele bocado da História da Terra, apesar de nos sentirmos os maiores dos descobridores, aventureiros de sangue.

Daí foi uma caminhada, leia-se escorregadela, pela mata enlameada com o Grey em vista por entre as árvores até ao Campamento El Paso. Almocinho regado a Speed Zone, o Red Bull marca branca que conseguíramos encontrar, que nos deu asas para fazer dois troços de seguida até ao Campamento Grey em passo mais rápido que os mapas e os guias. Tomada a Coca-Cola da vitória separamo-nos das pessoas com quem trilhámos a parte de trás do El Circuito, guias, casais, famílias, e seguimos para o Lago Pehué.

O corpo, revoltado com todo o esforço acumulado, começa a dar de si e sofremos bem, algo desnorteados em relaçäo ao mapa, sem ribeiros de onde recolher água. A certa altura, numa das últimas subidas, tivemos de recorrer ao chocolate de reserva para abafar quebras de tensäo.

Lá chegámos, exaustos, com direito a mais uma Coca-Cola e sopa de marisco de pacote. Acabámos a comer na tenda, com o vento a ameaçar derrubar a tenda, que se revelou rija, mais uma vez e sem surpresas.


Dia 5 - 8 de Janeiro de 2008
Lago Pehué - Campamento Italiano - Lago Pehué (30 kms)


Acordar tarde e comer tarde, deixando todos os mantimentos na cozinha do Camping para ficar de mochila leve. Decidimos dar mais um esticäo às pernas e aos músculos só pelo prazer de andar. Um prazer que já näo o era assim tanto, ao fim de 5 dias disto. O céu encoberto e a chuva miudinha parecia dizer-nos para que ficássemos onde estávamos, ao que respondemos com 15kms para lá e outros tantos de volta para ir ver o ex-libris do Parque - Los Cuernos, montanhas em bico, de basalto e granito que rasgam o azul do céu. Pelo menos nas fotografias.

Nesse dia os Cuernos näo nos perdoaram o facto de termos decidido andar fugidos o tempo todo, perdidos atrás de outras montanhas, e mantiveram-se cerrados pelo nevoeiro. Abriram, em jeito de piscar de olho - "vejam o que perderam!" - a seguir ao almoço, quando regressávamos ao turquesa do Lago Pehué. A tempo de tirar umas fotografias de despedida. Apesar do corpo preso, a alma pedia-nos para ficar mais tempo. Tínhamos ainda muito para trilhar, muita paisagem para surpreender, tanta Natureza para nos libertar dos vícios de meninos da cidade.


Epílogo

Presos pela curta duraçäo da viagem, tivemos de apanhar o barco, cheio e caro, que nos permitiu poupar um dia de caminhada. Os últimos momentos que levamos de Torres del Paine säo os do conforto, no bar do Camping, a tomar uma Kuntsmann, "a melhor cerveja a sul do México" segundo o Lonely Planet.

Do barco para o autocarro, chegados a Puerto Natales já a noite nos exigia sopas e descanso. Que encontrámos no Mwono, unanimemente considerado (somos só dois, também) o melhor hostel que encontrámos na Sudamérica. Quente, acolhedor, barato, com casas de banho asseadas (finalmente um banho!), um dono impecável e pequeno-almoço à janela, servido quando quisessemos. Os luxos que sentíamos como merecidos e que, mesmo que näo fossem melhores do que encontrámos em toda a nossa vida, saboreávamos como se nunca tivéssemos vivido em civilizaçäo, como se tudo fosse novo e óptimo. Como se a vida fosse óptima e estivesse à nossa espera para que a pudéssemos gozar ao máximo.


A verdade é que sem conheceres os dois, nunca saberás apreciar verdadeiramente nenhum deles.



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*"Sugar o tutano da vida" faz parte de uma das citaçöes mais fortes de Henry D. Thoreau que serve de descriçäo ao blog de viagens e surf Tempo de Viajar.

16.1.08

Sinal de vida

[Bariloche, Argentina]

Só para dizer que sigo vivo, bem vivo e bem vivido, nesta Sudamérica.

O hostel surreal em que estou e o tempo de viagens de autocarro impede-me de escrever muito, mas no meu Moleskine tenho três posts na ponta da folha, mais um de fotografias.

Estamos de saída, de vez, da Argentina, mais um país que se fecha. E daqui vamos para Santiago - de regresso a Casa! - onde poderei por aqui tudo o que está em falta.

Vemo-nos daqui a muitos quilómetros, num sítio que já conhecemos.

9.1.08

Muita montanha depois

Cinco dias de caminhada, cerca de 80 kms.

Ninguém disse que ia ser fácil, nem divertido, mas é este tipo de coisas que nos faz sentir vivos.

De volta à civilizacäo, em Puerto Natales, com um dia de descanso antes de voltar a entrar na Argentina. Tempo para esticar os músculos, por o sono em dia, rever as contas bancárias (que susto!) actualizar o blog e ver como páram as modas na Patagónia chilena.

Ainda que haja muito para escrever, é impossível näo me sentir inspirado pelo corpo dorido que trago comigo, pelo céu azul à minha frente e pelo ar fresco e limpo fora do cyber-café.

3.1.08

Radio silence

Incontactavel durante os proximos cinco dias.

Se quiserem saber por onde ando, e o que ando a fazer, vao ao Google e escrevam Torres del Paine.

Depois conto como foi.

Over and out.

1.1.08

Na Terra de Ninguém

Ou Como chegar ao Fim do Mundo.

Näo é qualquer pessoa que vai à Tierra del Fuego. Daí a cumplicidade que se gera entre as pessoas que partilham o autocarro de Rio Gallegos para Rio Grande e, depois, para Ushuaia.

A nossa entrada no bus, tardia mas com estilo, é muito saudado e o espírito entre todas as pessoas é muito bom. Toda a gente mete conversa com toda a gente. "Son de Portugal? Yo tengo un apellido portugués - Pereira"; "Adonde va usted?". Oferece-se e reparte-se comida, ensina-se coisas sobre a Patagónia e a Tierra del Fuego.

O mais curioso é estas terras estarem divididas entre Chile e Argentina. Por quatro vezes passámos em Aduanas. Sai da Argentina. Entra no Chile. Sai do Chile. Entra na Argentina. Pelo meio viajamos por terras de ninguém, por terras disputadas e por algumas ainda defendidas por minas antipessoais. E cruzámos o Estreito de Magalhäes, num dia calmo, entrando assim na maior ilha da Sudamérico, baptizada por Magalhäes [traidor ao serviço de Espanha, segundo o meu Sancho Pança] ao ver as fogueiras dos nativos por trás das montanhas.

Aqui, picardias sobre petróleo, gás natural e pastos férteis à parte, sente-se a tal magia. No olhar íntimo das pessoas, nas paisagens, nos ventos polares que nos atacam sem piedade. Estamos a Sul. Estamos, Antártida à parte, no ponto mais a Sul do Mundo. Só o conceito é estranho o suficiente para por a cabeça a andar à roda e os pulmöes a respirar mais devagar. A realidade, meus amigos, a realidade do que se vê e se sente é indescritível.

Venham cá abaixo ver isto.

Na Terra do Nada

Ou Onde é que nós estamos?.

Rio Gallegos, 36 horas depois de Buenos Aires. Nem nós sabemos bem onde é que isto fica, quanto mais as nossas famílias.

[para que se saiba, Rio Gallegos fica no Sul da Patagónia Argentina, junto à costa, e é a porta de saída para a Tierra del Fuego]

Comparado com Buenos Aires, esta pequena cidade tem de facto muito pouco e nada que se acrescente a esta viagem. Já o Lonely Planet avisava. Junto do terminal rodoviário, um camping onde estreamos a tenda comprada à saída de Buenos (mostrámos que ainda temos sangue campinaciano a correr em nós. tal a rapidez com que montámos e desmontámos a tenda); no centro, restaurantes onde comemos bem e barato e ciber-café onde passámos horas na Internet e a jogar Playstation, depois de uma frustrada visita a um museu. [e aquele palerma que jogava Playstation sozinho com a namorada sentada ao lado a ver?!]

Nem aquilo que parecia que nos ia ser "oferecido" por Rio Gallegos, os 120 pesos que ganhámos no casino, acabou nosso, mas de um taxista da cidade.

É que, depois de uma alvorada antes das sete da manhä para apanhar o autocarro das 8.30h, o nosso fado de "maus apanhadores de transportes", encontrou-nos neste cantinho escondido do Mundo. Estávamos no terminal às 8.04h, mas isso näo chegou, porque a hora tinha mudado (adiantado) na noite antes.

Em sintonia, o Huckleberry Finn e o Tom Sawyer (leia-se, Bessa e Manel) decidem apanhar um táxi. A nós junta-se um americano (estado-unidense) professor de inglês que vai ter com os pais (a fazerem um cruzeiro) a Ushuaia. Nem meia hora depois alcançávamos o autocarro, ainda antes da fronteira, fazendo o taxista festejar ainda mais do que nós. Lá o deixámos, 170 pesos mais rico, feliz por si e por nós, enquanto que eu, subindo para o bus, decidia que nada acontece por acaso.

11.11.07

Afinal sempre há um país à volta

Eu tenho um problema. Não é muito grande, mas existe. Quando quero escrever sobre acontecimentos já com alguma distância dá-me um certo bloqueio. Não é falta de vontade de escrever mas, por já ter passado algum tempo, perco o ângulo de escrita, a forma como quero abordar as coisas. Tudo isto se resolveria se usasse mais o Moleskine que comprei antes de vir para cá mas a sede de viver aquilo que se vai passando leva-me a usé-lo muito pouco. Deste problema nasce alguma hesitação no desenvolvimento do blog. Felizmente tive uma ajuda externa. Ferreira Fernandes, colunista no DN, e que leio quase todos os dias, opina hoje sobre a facilidade de em certos eventos da História se esquecer o cidadão anónimo que neles participa. E, porque "good writers borrow from other writers, great writers steal from them outright", fiquei-lhe com a ideia, ainda que imperfeita, e com o título deste artigo. Obrigado Ferreira Fernandes.


A conhecer um país estrangeiro facilmente nos damos conta das suas idiosincrassias, da sua identidade. Como cultura e como sociedade. Sabemos até descrever, em termos gerais, as suas gentes. Mas, a não ser que travemos amizades mais que de passagem, mais que superficiais, rapidamente esquecemos as caras que encontrámos e ficamos só com as nossas impressões. A maior parte das vezes erradas ou incompletas, no mínimo.

Gostava de falar com maior profundidade dos chilenos e, aqui em particular, dos chilotes. Não o posso fazer, contudo. Resta-me apenas, além de descrever sucintamente os nossos dias em Chiloé, falar da cultura e identidade do povo chilote.

Mística e misteriosa, a sociedade que se desenvolveu em Chiloé (ver informação geral aqui, e sobre a mitologia aqui) é originariamente Mapuche, nativos do sul do Chile. Os que se fixaram neste arquipélago estabeleceram, no entanto, uma micro-cultura com um dialecto próprio (huilliche, face ao mapudungun comum aos Mapuche) e acreditando na existência de seres humanos e sobre-humanos com poderes especiais, sobretudo para "explicar" a geografia chilote, a relação de forças entre o azul do mar e o verde da terra.

Faixa 05. Youth Group - Forever Young


[no ferry do Continente para a Isla Grande]

Este contraste colorido conhecemo-lo a atravessar o necessário ferry, do continente para a Isla Grande, a sul de Puerto Montt. Depois, à medida que nos embrenhávamos mais para dentro da Ilha, eu e a Sanchinha rendemo-nos às suas cores, principalmente o verde. Sim, realmente faz lembrar a Irlanda. Chegados a Castro, encontramos outras fontes de cor - os palafitos, casas de madeira sobre a água, assentes em estacas.


[a cor dos palafitos]

Castro é uma cidade (cidade?) pequena mas com um ritmo frenético. Ao menos tão frenético quanto um pueblo com pouco mais que uma dúzia de ruas pode ser. Serve como porto central do arquipélago e ponto mais importante de trocas. A sua rua principal - San Martín, que termina, adivinharam, numa Plaza de Armas, qual rambla envolve-nos e engole-nos enquanto buscamos alojamento. No fim de algumas recusas, nossas e de hotéis, lá encontramos o Hostal Cordillera.

Um dos quadros dentro do Hostal, ao lado da casa de banho, por acaso, descreve as figuras da mitologia chilote. Todas explicam algo - as ilhas e o arquipélago que se formou, gravidezes inesperadas, noites baças e sem memória causadas pelo álcool, tudo.

O grande contraponto a este paganismo de índole Mapuche são as igrejas de madeira de Chiloé. Construídas por missionários jesuítas, são já cabeça de cartaz turístico do arquipélago. Entre o Parque Nacional, que ocupa mais de 50% da Isla Grande, e os pinguins da Península de Punihuil. As igrejas, símbolo já da ilha, portanto, não representam assim tão idealmente a evangelização dos chilotes, já que muitos, se não todos continuam a dar importância aos ritos e mitos anteriores à Cristianização.


[a Iglesia de San Francisco, em Castro]

Pelo pouco tempo que passámos em Chiloé, e por alguma falta de planeamento, acabámos por concentrar-nos em conhecer as ditas igrejas. Ah, e em comer bem, especialmente peixe. E, claro, o curanto, cozido de vários tipos de carne, peixe, marisco e batata. Discute-se se a sua origem é Mapuche ou polinésica. Uma polémica importante do ponto de vista da colonização do Pacífico e da Sudamérica. A ela voltarei dentro de alguns posts.


[a Sanchinha com um palafito restaurante por trás]

Para conhecer algumas das igrejas - são dezenas - fizemos um roteiro dividido em dois dias e que nos afastou decididamente da rota do Parque Nacional e dos pinguins, para cada qual precisaríamos de um dia inteiro.

Foi assim que demos por nós em Chonchi, primeiro, numa tarde de sol. O ponto mais a sul do Globo onde já estive; e não creio que conheça alguém que tenha estado tão perto da Antártida - a Cidade do Cabo, África do Sul, é mais a norte. Maldita a hora!; acabei por deixar lá, por descuido meu e má fé de uma família chilena, os meus (da família) Ray Ban Aviator. Rest In Peace, my friends.


[Igreja de Chonchi]


[tirei os óculos para sacar esta chapa de Chonchi...e o resto é história]

Faixa 06. Evermore (Dirty South Remix) - It's Too Late

No dia seguinte, o último (quinta-feira, 11 de Outubro), fomos até à Isla Quinchao, a segunda maior, através de Dalcahue (aqui, mais um pueblo mais uma igreja). Em Achao, a capital daquela ilha, foi construída a primeira igreja chilote. E deste pueblo tem-se uma vista incrível, em dis de céu límpido como nesse, para o continete e para os Andes, quando La Cordillera penetra na Patagónia.


[Igreja de Dalcahue]


[um certo tuga "sudamericanizado" em Achao, frente ao mar, com os Andes lá no fundo]


[Igreja de Achao, a mais antiga de Chiloé]

Despachado mais um óptimo almoço marinho e vista a igreja entrámos em mais uma corrida contra o tempo, típica de bagpackers ("mochileiros"), portugueses, ou minha. O bus para Santiago - agora pela Cruz del Sur, não pela TurBus - saía de Castro às 17.05h, e o de Achao para aí chegava cinco minutos antes, via ferry em Dalcahue. Isto imaginando uma situação sem atrasos, que há sempre, ainda que mínimos.

Sem telemóvel ("morrera" em Pucón), lá liguei de uma cabine para o Terminal de Buses de Castro a pedir para que o nosso autocarro saísse mais tarde. Disseram que sim, sem hesitar. Esta atitude tranquila, mesmo que causa de atrasos, é que conquista o estrangeiro a cada passo que dá no Chile, especialmente fora de Santiago.

A viafem de saída de Achao foi a grande velocidade, dentro do possível que são 60 kms/h, com o micro bus apinhado e a porta aberta. Lá nos deixaram numa ponta de Castro, de onde corremos para uma "cama com rodas" (viajámos num Salon Cama, melhor que primeira classe de avião). Chegámos a tempo, saímos tarde mas, dezoito horas depois, estávamos do que a tempo em Santiago.


[caminha!]

Para trás ficava a Patagónia insular, os lagos, o verde, o misticismo Mapuche e, lá está, os chilotes que não conhecemos.