7 Meses na América do Sul

A PUC de Santiago, o Direito chileno, o pisco e as empanadas, os Andes, o Pacífico, a Sudamérica, Rapa-Nui ... enfim, La Libertad.


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18.6.08

Um bocadinho de lá, aqui

Ligo o iPod, phones nos ouvidos. Sem surpresa, a música começa a tocar, mesmo que sem pedido, e os acordes que se ouvem denunciam a música latina que aí vem.

Fecho os olhos, recosto-me ao banco. De fato aberto, gravata atirada para o primeiro canto escuro que encontro. Terminada a oral, descanso corpo e mente.

Abro os olhos, sou mais um vulto, no meio de caras semi-conhecidas, entre nomes esquecidos e os nunca aprendidos. A faculdade passa-me ao lado ou é que passei ao lado dela?

O calor abrasa, pequenas gotas de suor fogem do cabelo curto. Antecipo, não sei porquê – narcisismo? – conversas escondidas sobre mim, talvez daquelas duas raparigas ou daqueles tipos a discutir as aulas e os exames.

O ambiente de Direito – só quem o viveu é que o reconhece – sempre presente; uma mistura de sabedoria suprema com profundo sentimento de ignorância e insignificância.

Estou em Lisboa, mas nunca deixei Santiago. Ou estive em Santiago e nunca larguei Lisboa?

Nunca me deixei ir. Nem voltar. Agora não há nada a fazer; tenho de me recompôr, recuperar os estilhaços de mim mesmo, à deriva no Mundo; presos ou soltos?

Eu sei que não estou – não sou – livre. Ao menos que relembre, escreva, descreva a prisão onde livremente deixei o meu espírito fragmentado. Algures entre a Europa e a América do Sul. Um bocadinho em Santiago e outro em Lisboa. Ou o bocadinho de lá que está aqui comigo.

6.2.08

Espectros

[17 a 20 de Janeiro de 2008]

O regresso a Santiago fica marcado pela nostalgia. E pelos fantasmas, uns que lá encontrei e outros que lá deixei.

A Casa Suecia, reduzida a escombros numa das cozinhas e a residentes espalhados pelos quartos, surge como um qualquer hostel. Pior. É uma casa que já foi minha mas que ainda näo deixou de ser. Mostro orgulhoso os espaços, domino as cozinhas e as áreas comuns, mas näo tenho pessoas para apresentar às oito e meia da manhä daquela quinta-feira. A Maria, mäe adoptiva disfarçada de empregada, há-de aparecer, como a Nohemi, mexicana espampanante que se adivinha pela voz esganiçada na entrada. E a Nany, México também, que lá estava com uma irmä e uma amiga, mais os chilenos Dani (coreano de nascença) e Carlos, que ficaräo mais um semestre. Começa a compor-se, penso. Mas as conversas recaem sempre nas saídas dos conhecidos e nas próximas, muito próximas, chegadas de desconhecidos.

O Joaquín (equatoriano, um dos meus irmäos suecos mais próximos) havia de ir acordar-me já eu dormia, depois de um dia ao sol, quente, tórrido, em que mostrei Santiago ao Bessa, com os Andes como espectro por trás do smog, também ele um fantasma santiaguino costumeiro. Foi uma noite de carrete, em que passámos chanchos no Subterräneo, terminando em Casa abraçados quase a chorar diante de fotografias do nosso semestre (o Bessa ficou a dormir nessa noite, o que me permitiu umas liberdades emocionais). E o Juan (um "tío" espanhol, outro grande mano de armas), que se veio despedir de propósito dois dias depois, cujos reencontros ficaram pendentes para Madrid e Lisboa.

Mais os Icos (Mico, Chico e Kiko) e o Guilherme (os três primeiros tugas-chilenos residentes e o último companheiro das últimas semanas de semestre), que fizeram um desvio ao plano original da sua viagem para mais uma última noite comigo em Santiago. Uma noitada em que o taxista Hugo, nosso condutor nas fiestas no Chile, se despediu sudamericanamente de abraço e beijo, e em que esgotámos o que o Sala Murano, nossa discoteca de eleiçäo, nos podia oferecer, em väo procurando acima das cabeças os outros portugueses, dançando ao som do reggaeton com uma chilena menos feia (ou gira, coisa rara) que encontrassem, de "piscola" (pisco e Coca-Cola) na mäo.

E a Sanchinha (que finalmente se juntou a nós), para quem esta re-passagem por Santiago fica marcada por um espectro da alegria que teve antes, pela angústia de uma mochila perdida em Buenos Aires que lá acabou por aparecer. Umas 24 horas de espera que nos fizeram dormir uma noite clandestinos na Casa Suecia, levando-me a sair de manhäzinha, pela porta pequena, ainda que com uma mensagem gravada a verde nas paredes no hall de entrada e de recuerdos. [desfeita à dona, merecida pelo que nos cobrou em excesso nessas noites e durante o semestre]

Espectro foi também Valpo, vista à pressäo, que com o céu tapado näo mostrou metade dos seus encantos, numa visita fugidia que nos levou também a Viña del Mar - que näo conheci bem e bem que gostava - e à praia de Reñaca com aqueles tugas-chilenos.

Espectros. Fantasmas. Sombras. Fecho os olhos e vejo Santiago e a Casa Suecia deixarem correr o seu destino. As nossas marcas nas paredes, nos móveis, no cheiro da casa näo säo mais do que espectros do nosso semestre. As festas e as pessoas dos nossos cinco meses säo fantasmas que assombraräo quem lá viver, de passagem por um semestre ou outro. Sombras vivas que parecem sair das paredes e contar estórias. "E quando nevou.."; "E aquele que adormeceu aqui..."; "E quando tirámos os móveis todos e..."; "E quando o outro caíu do telhado..."; "E aquele casalinho...".

As pessoas escutaräo, assombradas, e diräo para si próprias, como eu disse em Agosto, que teräo o melhor grupo e o melhor semestre de sempre. E um de nós, ou o nosso espectro, suspirará e dirá para o ar, como cantávamos entre nós a música que agarrou o fim dos nossos dias na Casa Suecia - "I hope you have the time of your life".

19.11.07

Parrillada 6

A sala grande está quase sempre demasiado quente e a luz do candeeiro por cima da mesa, apesar de escassa, aquece-a ainda mais e dá aos móveis sombra em tons alaranjados. A avó, buscando no móvel atrás do sofá, retira de entre os brinquedos e recordações da infância do filho um caderno, um boletim informativo dos tempos do Colégio. Como se o relesse todos os dias, abre-o directamente na página que lhe interessa. Por entre elogios à capacidade de observação, do poder de síntese e de simplicidade, lê em voz alta a descrição do filho, que não teria mais de 12 anos na altura, fizera da Festa das Famílias. Foi qualquer coisa como o que a seguir se transcreve que a avó, naquela sala quente e escura, em passada lenta mas segura, declamou para o neto:
«Vi, li, comi, bebi, brinquei, saltei, joguei, ri».

Os dias esbatem-se. Já não sei se estou a vivê-los ou simplesmente caminho num corredor de espaço e tempo indefinidos, espreitando de vez em quando para portas entreabertas e vendo, em cada uma delas e apenas por breves segundos, imagens de um dia no Chile. Dias que parecem pertencer a outro e outros. Eu, no silêncio do meu quarto, às tantas da manhã, quando a luz da peça 18 é a única acesa da Casa Suecia, já mal me lembro, tão curto foi o tempo que espreitei, desses dias que vi passar.

Das últimas semanas há quatro ou cinco datas que fixo como marcos e, em função delas, tento reconstruir a vida que por cá passou. Dia 14 de Outubro saíu de cá a Xinha; dia 26, chegou a mãe. De 27 a 30 estive na Ilha da Páscoa - honras de post próprio, talvez mesmo posts. De 31 de Outubro a 4 de Novembro mostrei Santiago à mãe e às Mafaldas, incluindo a noite à prima. E, para acabar, dia 8 de Novembro conheci Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, evento que também terá o seu post individual. [formalismo, claro, não vá o acaso trazer alguém da Presidência a este blog]

Ora, aparte as historietas que terão os seus parágrafos de destaque, o que é que se tem passado por aqui? Um pouco de tudo e um pouco de nada. Conhece-se mais pessoas, claro, mas o mais forte é aprofundar os conhecimentos que já se tem. Posso dizer neste momento que tenho cá amigos de todos os continentes. Excepção feita à Antárctida mas, de acordo com as discussões geográficas que vamos tendo (acontece em todos os Erasmus/intercâmbios?), há quem não a considere um continente.

Tenho alternado entre a vida de estudante, ao meu género - muito trabalho em casa e pouco nas aulas - e a de estrangeiro, passeando ao acaso. É dizer, lá tenho feito uns papers e umas redacções - todos com notas acima do 6, incluindo um 7 (igual a 20) e tenho ido a poucas aulas. Bom, agora é indiferente que não tenho mais aulas, só de Español. Nos mientras vou indo a umas fiestas e temos feito algumas, menos mas melhores, cá em Casa. Das caseiras é de destacar a Festa Sem Roupa/Máscaras/Eighties (pessoas houve que vieram só vestidas com coisas que não fossem roupa - toalhas, bandeiras, fraldas, etc. - outras de máscaras ao acaso e, outras ainda, de Anos 80). Fora de casa, voltei a La Piojera, essa tasquinha mais tradicional de Santiago e lar do terremoto (vinho branco com gelado de ananás), onde já tinha ido com a Xinha.

Com a mãe e as Mafaldas visitámos um pouco de tudo. Fui finalmente ao interior de La Moneda, o palácio do Gobierno de Chile, e ao Cerro de Santa Lucia, para além de ter ficado a conhecer o Santuário de Schoenstatt de Santiago. A acompanhar, boa comida em sítios óptimos da cidade como o Liguria, de novo, o Como Agua para Chocolate, e o Peperone, aquele das empanadas óptimas no Barrio Brasil. Resumindo, foi uma semana sem cozinhar. Ficou por ver a casa de Pablo Neruda cá em Santiago, La Chascona. Mas tenho tempo.

Em termos físicos, é de destacar o meu novo pelo. Cabelo rapado (patilhas fora, idem), se não me engano no dia 19 de Outubro que, entretanto já lá vai um mesinho certo, tem crescido com tranquilidade. Tenho procurado comer mais saudável, cozinhando - agora sim! - uma coisa nova todos os dias. Para ajudar à boa forma, abdominais e flexões todos os dias de manhã e à noite, que não há dinheiro para ginásio e o da Universidade é longe. Quanto a futeboladas, só hoje voltei a espalhar magia em canchas chilenas. Ah, antes fosse! Por falar em futebol, no dia 21 de Outubro assisti ao grande derby santiaguino, Colo Colo - Universidade de Chile, no Estádio Monumental. Experiência brutal ao lado dos hinchas do Colo Colo, ninguém se sentou o jogo todo. O bairro à volta do Estádio, que não se vê de fora porque é escavado no chão, esteve fechado por barricadas dos Carabineros. Controlo total, que não evitou desacatos e 20 detidos. Dentro das quatro linhas, o Colo Colo cedeu um empate caseiro a 2-2, tendo falhado um penalti e deixado a vitória escapar ao sofrer um golo nos últimos minutos. Quando tiver fotografias coloco num albúm dedicado a Santiago aqui ao lado.

O meu castelhano evolui seguro, com alguns chilenismos já dominados em conversas quotidianas. Nos próximos dias virá um post/dicionário das expressões próprias do castelhano chileno. Também estou com um inglês escorreito já que mais frequentemente do que volta e meia falo inglês com os "angloparlantes" cá de Casa. Tenho tentado praticar o francês sempre que posso mas tem sido difícil - só conheço um francês, o Benjamin, e ele gosta de falar espanhol. Depois há a Sanaa, a franco-marroquina do curso de Español, com quem falo francês via net. Mais as experiências com a Marine, em San Pedro de Atacama, e o francês que subiu comigo a la cumbre do Volcán Villarica.

Tenho tentado fazer o máximo que posso só que, embora saibam bem as tardes cá em casa com os meus "hermanos suecos", às vezes dou por mim com um sentimento de culpa, ou apenas medo, não sei, por não estar seguríssimo, sem dúvidas, se estou ou não a aproveitar ao máximo. É que já nos demos todos conta, está a acabar. O primeiro da "nossa geração" (Casa Suecia 2º Semestre 2007) a voltar para casa foi o Heider, brasileiro de Salvador da Bahía, no fim-de-semana passado. Não raras vezes é possível encontrar-me a olhar nostálgico para uma parede, um quadro, o céu, uma pessoa. Eu e todos. É que é fácil imaginar uma ampulheta a esvair-se, rapidamente, de areia, levando-nos a todos daqui para fora. O meu dia 100 foi esta quinta-feira, 15 de Novembro, e já só me faltam 26 dias em Santiago.

Para a família, em Portugal, são boas notícias. [serão?] O tempo esgota-se e eu sigo são e salvo, claro. E, num instante, vou estar em Lisboa. Eu, na ânsia de beber o que me resta de Chile, deixo telemóveis e mails de lado, excepto o da faculdade mas esse não o têm. Até evito o blog, ainda que tenha recuperado alguma constância. Comunico pouco com a família mas tento fazer saber que está tudo bem sempre que posso. Como no caso do terramoto de quarta-feira, em que eu, era meio-dia e tal, comecei a pensar em tremores de terra. Vim a saber mais tarde, tinha havido um no Norte do Chile, 7,7 na escala de Richter, e que está a afectar tantos sítios que conheci na nossa road trip tuga. Por sorte, as construções são mais sólidas que no Peru e não teve o efeito devastador que teve o de Agosto nesse país, ainda que quase tão forte. E, afinal, senti-o bater devagarinho cá em Santiago.

Aproveito as minhas viagens de transportes públicos, agora que já conheço os truques, atalhos, horários que não existem e as manhas dos autocarros da Transantiago e dos metros, para ler. Tenho lido muito, à média de um livro por semana, tentando guardar uns para a Viagem pela Sudamérica. Entre o que tenho lido destaca-se El jardín de al lado, de José Donoso, romancista chileno; O Poder dos Sonhos, conjunto de artigos de Luís Sepulveda, escritor revolucionário chileno; A Cidadela Branca, de Orhan Pamuk, turco Prémio Nobel da Literatura de 2006; e Viagens por um País Longo e Estreito, de Sara Wheeler, escritora inglesa que é paga para viver e viajar em países estrangeiros e escrever sobre isso. Rica profissão. Se alguém conhecer um editor que não seja nada exigente apresente-me que eu sou capaz de ficar por aqui. [pronto, agora arrasei o coração da família e da namorada]

Rapidamente, para quem quiser uma amostra do que se tem passado por estes em Santiago, onde a temperatura tem chegado aos 30º C e os índices de radiação solar aos 16, acima do nível máximo saudável que é 10, aqui ficam umas fotografias de uma das noites; é que normalmente não se tira fotografias enquanto se escreve papers, ou se lê um livro, ou se vê um filme, ou se come, ou... Bom, mas para fotografias de dia, para as poucas que há, esperem por uma nota minha a anunciar novos albúns aqui nos Retratos da Sudamérica.

[a mítica La Piojera]

[Andrés (Colômbia), Joaquín (Equador), Juan (Espanha), Manu (Portugal), Tuomas (Finlândia)]

[simbiose]

[numa sala a céu aberto, em casa do Pancho (Chile), tropecei e caí sentado ali;
ainda hoje tenho espinhos]

[Manu, Joaco, Juanito y Andrésito;
ah e digam adeus àquele cabelo, foi a última fotografia]

Enfim, numa frase, «vi, li, comi, bebi, brinquei, saltei, joguei, ri».

17.11.07

A primeira oral

Ou como ando às avessas.

Sabia que tinha uma prueba (de Derechos, Deberes y Garantías Fundamentales) marcada para dia 12 de Outubro, a sexta-feira em que voltei com a Sanchinha para Santiago. Aliás, voltei por causa da própria prueba. O que não sabia, porque se decidiu durante a semana em que estava no Sul, é que essa prova era oral.

«Ah, boa», imagine-se a minha cara de parvo a olhar para o quadro onde afixam as salas de exame. Mal consegui responder à colega que me reconheceu e perguntou se eu sabia onde era o Anfiteatro 3. Por acaso, vá lá, para essa pergunta até estava preparado.

O problema de ser oral, para quem ainda não percebeu, é porque é como jogar à roleta. Qualquer pergunta pode sair, de qualquer matéria e com o grau de dificuldade que o professor, ou professores, bem entender. Eu não tinha estudado muito, mas o suficiente para uma prueba escrita como a primeira, com algumas perguntas genéricas. O que eu não ainda não alcançara é que esse teste não tinha corrido tão bem como eu pensava. O meu estudo abarcava umas horinhas no bus de Castro para Santiago, em que fui lançando impropérios sobre a matéria como «Mas quem é que precisa de saber de Direito do Médio Ambiente? Isto é só porcarias do género cultura geral - desenvolvimento sustentável, poluição, blá, blá, blá», e outro par de 60 minutos de manhã, ainda sob o trauma [nem por isso!] do furto insidioso do iPod.

Bueno, vá lá que os professores - dois, mais dois ayudantes - decidiram, ao contrário da minha Clássica, que era por regime de voluntariado. Quem estiver pronto, que se chegue à frente, em vez de se seguir a lista. Eu não estava, de longe. Se fosse em Lisboa, com a pica das orais, provavelmente teria sido o primeiro a levantar o braço. Outro pormenor é que desta vez, ao contrário da primeira prueba, havia um certo formalismo. Os professores de fato e gravata, como sempre, mas os ayudantes também impecáveis - o Gonzalo num fato de tom beige claro, gravata a condizer, e a Marcela de saia preta e camisa branca. Sim, trato-os pelos nomes porque os ayudantes cá são mais monitores que assistentes, o que é dizer que têm, no máximo, a minha idade. Toda a gente os trata por tu.

E eu, bem, eu, que na longíqua prova escrita me apresentara semi-pipi, de camisa e sapatos de vela, estava agora de ténis e long-sleeve. Vá lá que era preta, mais discreta, e tinha feito a barba quando chegara a Casa. A minha preocupação, de qualquer maneira, era outra. Era saber a matéria bem. E isso, ao lado de ver compañeros de clase de ténis, t-shirt larga e barba por fazer, varreu de vez o aspecto formal da minha cabeça.

Lá ganhei duas horas enquanto assistia às provas. No geral, sabia responder a metade das perguntas que estavam a ser feitas. Ninguém estava a chumbar - as notas são dadas na hora - e só a primeira voluntária corajosa tinha tido um 4 (equivalente a 10 em Portugal). Ia dizendo à Xinha, afastada para eu estudar, que ia ser o primeiro a chumbar, se não o único. Estava tão absorto (com medo?) que quando me perguntou uma colega qual era o meu apelido, não percebi. Só quando ela teve pena do "chico extranjero" e soletrou lentamente «T-U L-E-T-R-A» é que percebi o que queria. «C». E ai que os B já foram.

«Cordeiro».

Chegou a hora. Lá desci as escadas do auditório. E, como me acontece em Lisboa, estava calmo. Era indiferente. Quando faço orais pára tudo. É a coisa que me deixa mais desligado do mundo, dos meus problemas, da minha obsessão em resolver a crise da Segurança Social, da confusão que me faz o Sporting não limpar os jogos todos em Alvalade, de tudo e mais alguma coisa. Fazer uma oral. Frente a frente, olhos nos olhos com o professor. Saiba ou não a matéria, já aprendi alguns truques de como "pedir ajuda" ao interlocutor, aproximando-me do que querem que responda pouco a pouco. Ou, pura e simplesmente, de dizer «não sei», quando não vale a pena a aproximação. É um jogo duplo. Os conhecimentos são 90% do que se exige porque para se ter a nota que se deseja os outros 10% dependem da sorte, da calma, da concentração. Se estiver muito nervoso a garganta seca e fecha-se no fim da primeira frase e aí, meus amigos, acabou. Game over.

Qual efeito psicossomático, agora levo sempre uma garrafa de água. Pode ser que esteja tão fluido que nem precise, até porque pode nem estar calor. Mas se alguma hesitação começa a secar o céu da boca tenho ali a amiga ao lado. O que dá momentos curiosos, em que se revela um desprendimento saudável como «Desculpe, senhor professor», e dá-se dois ou três goles a meio de um raciocínio, para refrescar a boca e as ideias, para incredulidade da assistência com tal desplante mas com sorriso cúmplice do professor.

Voltando a Santiago. [até porque não sou nenhum Platão, Marcelo Rebelo de Sousa ou Daniel Kaffee, que domine assim tanto as orais; safo-me, vá]

A pergunta sai disparada, era o único tema de que ainda não se tinha falado. Era tão pouco importante que nem me lembrava de não ter ouvido nenhuma questão sobre ele e, obviamente, era aquele a que tinha dedicado menos tempo de estudo. Claro, era o dos impropérios, o derecho a un medio ambiente libre de contaminación. «O que é isso? Meio ambiente? Livre de contaminação? É importante? Como funciona? Olhe que é igual em Portugal...» Boa, ainda bem que é uma matéria que nunca na vida estudaria, porque não tenho de, em Portugal.

Lá me lembrei de uns conceitos, mas... O mas foi o espanhol. É que já estava há duas semanas com a Xinha e andava a falar muito mais português que castelhano. Os "desarrollado" saíram com os R fechados, à Lisboa, apesar de já conseguir mandar uns R beirões e castelhanos, rrrrroliços, com a língua a badalar entre o céu e o chão da boca. Nesse dia, nada. Essa e outras. Como aquela frase «No, porque este es un derecho que está garantido... [risos nas galerias] hummm... garantízado, blá, blá, blá».

Mau espanhol à parte, o que fica nos livros é a nota. Sem saber a nota do teste anterior, mas sabendo que estava abaixo do 4 mínimo exigível, precisava de um 4,5 ou um 5, vá lá, para acabar com uma média de pruebas positiva.

«Hummm, muy bien... 5,5», sentencia o Profesor Rodrigo Díaz de Valdés, vestido sem falha de fato italiano e de aparência de jovem lorde.

«Gracias», só consegue dizer este desconcertado portuga, ainda a maldizer o seu espanhol, sem se aperceber que acabara de sacar um 15.

«Ah, y tu paper, muy bueno», elogia o Gonzalo, acenando com a cabeça.

O sorriso abre-se. «Sí? Gracias». Já sabia a minha nota do meu primeiro paper/ensaio em espanhol de sempre, que tinha feito há umas semanas. Já tinha visto a pontuação na net dois dias antes.

6,4, que é como quem diz 18. Dezoito. Devia ter vindo estudar para cá há quatro anos atrás.

13.11.07

Ups and Downs

Porque a vida é feita de altos e baixos, também os meus meses em Santiago teriam de o ser. Os últimos três dias da Sanchinha cá não poderiam fugir à regra.

Faixa 07. Gorillaz - Dare

[música acelerada para o ritmo frenético dos últimos dias]


Down
Chegámos a Santiago à hora de ponta, na manhã de sexta-feira (lembrem-se que estamos a 12 de Outubro), vindos de Castro. O dinheiro era escasso, daí a opção por ir de metro para casa. Saíu mais caro. No meio do rebuliço, pessoas, barulho, muita tralha, cometi o erro fatal de deixar a mochila pequena às costas e o iPod no bolso do lado. Isto apesar de me terem avisado, ainda em Portugal, que o Metro de Santiago era um paraíso para os carteiristas. À saída dei pelos bolsos da mochila semi-abertos e soube logo o que se passara. Bom, quem anda à chuva molha-se e eu estava bem encharcado. De qualquer maneira, qual capitalista consumista privilegiado, já tenho um substituto trazido pela prima dos States, free of taxes.

Up
Prueba oral - mau espanhol, boa nota; digna de post próprio.

Down
Cansaço acumulado da viagem e pouco dinheiro obriga a noite caseira na mesma sexta-feira, para desespero da Xinha. Acabámos divertidos em Casa com os meus "hermanos suecos", mas podia ter conhecido mais de Santiago. Desculpa.

Up
O regresso a Valpo. Como garantira, voltaria lá. Para mostrar à Xinha aquilo que considero como o verdadeiro Chile. É que, do que conheço - que é pouco! - Santiago é muito europeu; San Pedro de Atacama demasiado turístico ainda que desértico; os Lagos bastante (daquilo que imagino que sejam) Alemanha, Áustria, Suiça; Chiloé tem algo de Irlanda, realmente; talvez só no caminho para o deserto tenha encontrado o mesmo verdadeiro Chile, mas Valparaíso tem uma energia e uma cor que se retém muito melhor na memória.


[a parede de um hostal de Valpo]

Do dia em si, foi pena termos saído de Santiago já tarde mas foi uma experiência completa. Andámos, qual povo de Valpo, para trás e para a frente de micro (bus), ascensores e a pé. Pelas ruelas sujas e vielas pintadas de novo, tudo cheio de sol. Menos energia no ar que da primeira vez, já que o Chile jogava nesse dia na Argentina (perdeu 2-0).


[Xinha, cor e luz]

Subimos ao Ascensor Artillería, o maior da cidade, por cima do porto e de onde se tem uma visão amplíssima da baía até Viña del Mar. Passámos pelas mesmas calles que eu já conhecia mas a magia, essa, continuava lá. Depois de subirmos (para mim, pela segunda vez) ao Ascensor El Peral, fomos até ao Concepción, provavelmente o mais conhecido. Para além da vista, tem uma série de cafézinhos impecáveis. Um deles será mesmo o melhor spot de Valpo, ainda que caro e turístico - o Café Turri, mesmo em frente ao Reloj Turri, onde bebemos um chocolate quente e comemos um croissant de salmão e alcaparras, ao pôr-do-sol. Classe.


[se não fosse por esta placa, não se dava pelo Ascensor Concepción no meio do turbilhão de Valparaíso]

Up
De regresso a Santiago no mesmo dia, a tempo da festa do Carlos, companheiro chileno cá de Casa. Lá fomos a um bar/discoteca e, Bellavista, sem pagar nada por termos o nome à porta. Classe, outra vez. Última noite, última rodada e último reggaeton para a Xinha, agora que já se tinha habituado.


[casalinho na noite]

Down
E porque toda a papa doce se acaba, a Sanchinha tinha de se ir embora. Ainda estávamos a fazer compras (de última hora, claro!) no centro da cidade e já estávamos cheios de saudades. É que por muito que isto das novas tecnologias nos aproxime a todos ao nível de transformar o mundo numa aldeia, ainda há muito por fazer. Está por vir - não virá! - o invento que recrie aquele abraço e que apague, enfim, a mais portuguesa das palavras, o mais tuga dos sentimentos, a saudade.

Faixa 08. Death Cab for Cutie - Lack of Colour

[ficar a ouvir baixinho;
a música que não acabei de ouvir no iPod, antes de o guardar na mochila;
a falta de cor de Santiago, depois de a Sanchinha se ir embora]

2.9.07

Prueba solemne

O nome até assusta. Prova solene.

Cá existem os controles, que são chamadas escritas ou orais, normalmente a propósito de uma lectura. E os examenes, claro. Pelo meio existem as pruebas - testes ou frequências, também elas escritas ou orais.

A prueba de sexta, de Constitucional II, ou Derechos, Deberes y Garantias Fundamentales, era escrita. No próprio dia ainda me assaltou a ideia de ter de ir de fato e gravato - afinal, era "solemne". Fui só de camisa, normal. E ainda bem - apesar do epíteto, quem organizava a prova era os dois ayudantes, monitores, um rapaz e uma rapariga da minha idade (a cadeira é do quarto ano cá), ele de ténis e barba de dois dias e ela igualmente informal. O que seria aparecer ali de fato, já não bastava andar de dicionário na mão com ar de parvo.

Mais parvo fiquei quando vi toda a gente guardar a Constituição - exame de Derecho Constitucional sem se poder usar a Lei Fundamental? Saber artigos de cor? E eu que demorei 5 dias a comprar uma Constituição do Chile - aspecto curioso, só uma editora é que as vende oficialmente, e só, ou quase só, nas suas livrarias próprias. E estava esgotada até meio de Setembro. No dia antes à tarde lá tinha comprado num vendedor de rua uma coisa, não um livro, mal cortada (não tem formato de livro, não é perfeitamente rectangular), que me ajudou a ter uma noção das normas relevantes, mas não sabia artigos de cor para citar. Puxei da cabeça e lembrei-me de alguns toques que me pareceram importantes e acabou por não correr assim tão mal.

Entretanto, outro contra-senso. Para a prova solene os alunos levam as suas próprias folhas - normais, arrancadas dos cadernos ainda com aqueles restos de papel que se rasgas, por estarem à volta das argolas. Folhas com ar de rascunho, portanto, sujas. Lá peço ao chico do lado umas três folhas. Entregam os enunciados, duas horas para 18 perguntas. Cada vale 0,3, excepto três que têm pontuação a dobrar. O total dá 7, a nota máxima cá. Começo devagar mas à medida que me concentro e passo a pensar em espanhol a esferográfica ataca sem menos as folhas. E só usei o dicionário umas dez vezes.

Três perguntas ficam pelo caminho, não fazia a mínima ideia; não chegaram para tudo os apontamentos que uma colega chilena enviou por mail, mas ao menos evitaram a leitura impossível do Manual. Faço a prueba para 6,1 e é capaz de dar para o 4 - o mínimo para aprovação. Para o pouco que consegui estudar é uma vitória. E é também porque ter 4, 5, 6 ou 7 cá é indiferente - só me dão as notas finais em Portugal de acordo com a média das cadeiras que fizer lá, para além de ter ainda muito semestre pela frente.

Acabou por não ser muito dolorosa, esta primeira experiência de avaliação no Chile. Um pouco estranha, diferente, pouco solene afinal de contas, mas não dolorosa.

30.8.07

O paradoxo do privilégio

O mais importante de qualquer viagem sozinho, ou programa de intercâmbio, é a liberdade. O que comer, o que vestir, como falar, o que fazer connosco, basicamente.

Como é já la palissiano, a liberdade tem como reverso da moeda a responsabilidade.

Tenho prueba sexta-feira de Derechos, Deberes y Garantias Fundamentales, com uma quantidade de material de leitura fisicamente impossível de dominar em tão pouco tempo. Pelo menos aqui. Opto por descansar a cabeça e saber que ainda tenho o resto do semestre para recuperar se correr menos bem [obrigado a quem inventou os eufemismos].

Afinal, estar no Chile é ou não um privilégio?
Testes em Agosto... é só mais um sinal do paradoxo em que a minha vida se transformou em três semanas.

«You can't always get what you want. But if you try sometimes you'll might find you get what you need»

15.8.07

Os primeiros dias de aulas - ou, O desespero...

Não é por nunca ter gostado muito de ir às aulas. Não é o facto de só ter tido duas semanas de férias. Não é o castelhano, ou a pronúncia chilena, dos professores. Não é por não conhecer ninguém nas aulas. Não, nada disto.

É por ser Direito. Em Portugal, no Chile, as aulas de Direito são difíceis. Mais ainda se se juntam cadeiras - asignaturas - como Fundamentos Filosoficos del Derecho. A cadeira mais abstracta que já tive, em que ainda não se usou a palavra reglas ou juridico, só trabalhámos o conceito de vida, de alma, de Deus. Ah e rezámos sempre, no início de cada aula, o que me parece normal numa Universidade Católica, mas a que já não estava habituado desde os longíquos tempos de Colégio (que velho!).

Como outras cadeiras temos Derecho Procesal Penal, Derecho Internacional y Colectivo del Trabajo e Arbitraje. Desta última só lhe vou conhecer os prazeres amanhã, jueves, às 08.30h.

Destas quatro só tenho certezas de ter equivalência a Processo Penal (nota mental - comprar o Código de Proceso Penal). E alguma esperança de que Fundamentos Filosoficos se aproveite para equivalência de Filosofia do Direito. Mas duvide que se fale da alma dos seres vegetais e de como Deus infunde a alma nos seres (ou tão pouco se reze!) nas aulas em Lisboa. Atenção, não estou a criticar as aulas de FFD - apesar das dificuldades, tenho adorado as aulas e os professores são muito bons.

Talvez, até ao fim da semana, mude algumas cadeiras para ao menos estudar coisas mais genéricas, mesmo sem equivalência, e, porque não, ter um horário mais equilibrado, com aulas um poquito mais tarde.

Até lá vou mas é aproveitar o resto do feriado.

PS - Hoje jogo o meu primeiro partidazo chileno - Casa Suecia v. Italianos (Paolo e Roberto) and friends. É para mostrar coisas bonitas!