7 Meses na América do Sul

A PUC de Santiago, o Direito chileno, o pisco e as empanadas, os Andes, o Pacífico, a Sudamérica, Rapa-Nui ... enfim, La Libertad.


Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens

18.6.08

Um bocadinho de lá, aqui

Ligo o iPod, phones nos ouvidos. Sem surpresa, a música começa a tocar, mesmo que sem pedido, e os acordes que se ouvem denunciam a música latina que aí vem.

Fecho os olhos, recosto-me ao banco. De fato aberto, gravata atirada para o primeiro canto escuro que encontro. Terminada a oral, descanso corpo e mente.

Abro os olhos, sou mais um vulto, no meio de caras semi-conhecidas, entre nomes esquecidos e os nunca aprendidos. A faculdade passa-me ao lado ou é que passei ao lado dela?

O calor abrasa, pequenas gotas de suor fogem do cabelo curto. Antecipo, não sei porquê – narcisismo? – conversas escondidas sobre mim, talvez daquelas duas raparigas ou daqueles tipos a discutir as aulas e os exames.

O ambiente de Direito – só quem o viveu é que o reconhece – sempre presente; uma mistura de sabedoria suprema com profundo sentimento de ignorância e insignificância.

Estou em Lisboa, mas nunca deixei Santiago. Ou estive em Santiago e nunca larguei Lisboa?

Nunca me deixei ir. Nem voltar. Agora não há nada a fazer; tenho de me recompôr, recuperar os estilhaços de mim mesmo, à deriva no Mundo; presos ou soltos?

Eu sei que não estou – não sou – livre. Ao menos que relembre, escreva, descreva a prisão onde livremente deixei o meu espírito fragmentado. Algures entre a Europa e a América do Sul. Um bocadinho em Santiago e outro em Lisboa. Ou o bocadinho de lá que está aqui comigo.

3.11.07

Pausa para respirar

A ideia de fazer um blog é sempre boa. Conseguir mantê-lo actualizado é outra história. Já não sei se o comecei por um exercício de vaidade ou se queria sinceramente ter um diário on-line para ir contando as minhas histórias no Chile.

As duas, provavelmente. E, por isto, merecem um pedido de desculpa as pessoas que, aos bochechos, ainda vão tendo paciência e o lêem. Vou tentar actualizar o blog até ao dia de hoje o mais depressa possível, de preferência este fim-de-semana.

Para isso espera-nos a história de uma feijoada, uma semana no Sur contada em dois posts, uma já tradicional parrillada e alguns apontamentos soltos sobre "o umbigo do mundo". E rápido de volta a Santiago que há muito trabalho para fazer.

26.10.07

V. Desertos e Desastres

Faixa 09. Gipsy Kings - Salsa Latino Medley

Cenário idílico, ao menos em versão chilena. Sal e deserto à volta, flamingos, mais sal e mais deserto. Sol e céu azul. Paz e tranquilidade. Depois de absorvida toda esta calma da Laguna Chaxa, a sul de Toconao (que por sua vez é ainda mais a sul de San Pedro, para dentro do já nosso Atacama), só apetecia rolar feliz para Santiago. Mas a viagem não ía ser assim tão fácil.

Marcha-atrás, compasso de espera para beber água e meter primeira. PAAAAAAAAAAAAAAAAAU! À nossa esquerda, atrás, alguém acabava de decidir romper a nossa harmonia com o mundo, abalroando-nos enquanto estávamos parados. Era o velho que nos tinha dado indicações em Toconao, que guiava uma Kia Besta - carrinha de 9 lugares a cair de podre. Um misto de sentimentos passou pelos seis, num espaço de minutos. Incredulidade, isto não pode estar a acontecer; raiva, o homem é parvo?; pena, ele não tem dinheiro para nos pagar; nervos, alguém viu o que o homem fez?; violência, vamos partir-lhe o carro; pena, outra vez; racionalidade, vamos ligar para o rent-a-car, para o seguro, para a polícia. Como era feriado, nem seguro nem rent-a-car. Sobrou-nos a polícia. Lá ligámos para o 133, número nacional dos Carabineros.

Lá vieram os de Toconao, já conhecidos, por que também aí pedimos instruções. O deserto acaba por ser pequeno.

Enquanto esperávamos, tempo para arranjar testemunhas. O caso começava a ser complicado já que o velho, que ao início assumia as culpas, agora negava tudo e nem sequer tinha seguro. À sudamericana, propusémos resolver tudo se nos entregasse 100.000 pesos - cerca de 150 euros. Obviamente, não tinha.

Por sorte, lá deu para ver mais um pôr-do-sol, mais uma "momento kodak" (hoje, mais um "momento máquina digital ultra-compacta"), com a esfera de fogo a fugir para o mar atrás da Cordilheira do Sal e a deixar o deserto, branco do sal, alaranjado da luz.

Lá chegaram os Carabineros de Toconao, lá fomos para Toconao esclarecer tudo. Pormenor - os turistas espanhóis que o velho transportava passaram as quase quatro horas do impasse (das 18h às 22h) dentro da Kia Besta. Até nos tiveram que pedir papel higiénico para poder ir atrás das moitas, que os Carabineros não os deixaram usar a sua casa-de-banho (respeito acima de tudo ou vergonha da sujidade?). Já não sabia de quem ter mais pena; se dos turistas prisioneiros, se do velho sem dinheiro, se de nós. Mas, estando juntos, sempre tudo parece mais relativo, pelo que, quanto a nós, estava tranquilo.

Decidimos não fazer uma denúncia, apenas pedir um relatório de ocorrência em que o senhor, finalmente, vencido pela exaustão (até os Carabineros o pressionaram), lá aceitou em declarar que nos abalroara. Serviria para que o rent-a-car nos ilibasse de pagar estes danos específicos - pensávamos nós...





[esquadra - retén - dos Carabineros de Toconao]

Passado este calvário, jantar improvisado num almacén típico da Sudamérica em Toconao. Daqueles que serve desde talho a farmácia, incluindo loja de ferragens, embora não seja muito maior que o nosso jipe. Sanduíches de queijo, atum, bolachas, água, sumo, batatas, mais uns munchies para a viagem e listos.

San Pedro de Atacama - Calama - Antofagasta - tudo parecia rolar a nosso favor, tentando atravessar o deserto pela noite para apanhar o tempo perdido. Ou não.

«- O que é que aconteceu?
- Eh pá, tivemos um furo, vou encostar»

E aqui prosseguem os desastres. Para quem não se lembre, os jipes têm o pneu sobresselente atrás. Uma vez que seria fácil de roubar, uma das porcas que o prendem tem uma fechadura. Esta abrir-se-ia - abrir-se-ia - com a chave da ignição. Pois, nós apanhámos o único jipe em que a chave de ignição não funcionava. Eram 4 da manhã e estávamos em pleno deserto do Atacama, a 300 kms de Antofagasta e a 100 de Chañaral.

Vá de tentar tudo, dividindo tarefas. Rebentar a fechadura pela força, impossível. Tentar ligar aos outros, que já estavam a dormir em Caldera, mais de 200 kms para sul, a pedir ajuda; não nos deram muita atenção, até porque a rede é quase nula quando se está em pleno deserto. Ver o quilómetro em que estávamos para ligar a assistência em viagem ou à polícia (coube-me a mim); lá acabei por perceber que não havia placas de um em um quilómetro, nem de dois em dois ou sequer três em três. O número certo era cinco, soube eu depois, e, depois de andar quase meia hora para Norte de novo, quando o jipe não era mais que quatro pontinhos luminosos a piscar, decidi regressar. No meio disto, o céu. É impossível descrever a luz das estrelas, as milhares de milhões de luzes, entre elas muitas "estrelas cadentes". Nunca vi um céu assim e duvido que conheça alguém que tenha visto. Ou seja, quando tudo parece perdido, há algo a que nos podemos agarrar.

Para além deste céu brutal, tivemos que nos agarrar uns aos outros para nos aquecermos dentro do jipe, para tentar dormir ao frio do deserto. Não sem mais um nascer do sol andino. Estamos a começar a ficar bons nistos.




[...
impossível de reproduzir;
oxalá tivera a tal máquina implantada nos olhos]

Depois de poucas horas - duas, três - de pouco sono, lá voltamos a virar atenções para a estrada, para pedir ajuda. Lá parou uma família de carrinha de caixa aberta todo-o-terreno. Pneus largos, é capaz de servir. Mas era Nissan e nós Suzuki, não deu. Mas deu-me boleia para Chañaral, pneu debaixo do braço, para procurar uma "vulcanizadora" onde pudesse remendar o pneu.

«Imposible, está muerto», disseram-me em várias. E pneus novos iguais, não havia neste pueblo feio e muito sujo. Apesar de todo o apoio desta família, que me deu boleia, comida, até chegou a oferecer dinheiro, não havia maneira de resolver a situação. Já eram 10 da manhã e o conselho único do rent-a-car, com que falava ao telefone, era partir a fechadura. Obrigadinho!

«Diogo, partam essa m... à força, nem que peçam a um camionista para isso» - sms enviado quando já desfalecia ao sol, em cima de um pneu furado, numa estação de serviço em Chañaral.

«Já conseguimos!» - sms recebido meia-hora depois. Um sorriso passou-me largo pela cara suja e cansada. Gastei as forças todas nesses dois segundos de alegria, finalmente podia dormir.

Enquanto dormia, não dormia com o pneu debaixo do braço e costas contra a parede de vidro da estação de serviço, dei por mim a pensar que, no fundo, era este o tipo de coisas que queria viver - e, sobretudo, superar - quando decidi vir para o Chile. Onde é que isto se podia passar na Europa? Nas auto-estradas de França, Itália, Alemanha? Agradeci estas horas no deserto e a forma como, todos juntos, as ultrapassámos. União, solidariedade tuga, tendo por base a boa disposição, mesmo quando a corda estava a ponto de ceder, de tão esticada que estava. A música escolhida para este episódio não é mais do que um reflexo disto mesmo. Quando as circunstâncias pediam um fado, algo trágico e fatalista, respondemos com salsa e risos. E saímos por cima, rumo a Sul e ao Pacífico.

Faixa 10. Don Maclean - Vincent

[esta sim, para ouvir calmamente a pensar na noite atacamenha]

29.8.07

Da efemeridade e de como sou emotivo

Como me conhecem, sabem que, apesar de ter um ar aparentemente calmo e de privilegiar a racionalização das coisas, sou uma pessoa emotiva. Um falso racional, se calhar, não sei.

Já longe vão os tempos de nervos à flor da pele, de chorar quando perdia um jogo do que quer que fosse. Mas, por exemplo, essa raiva surda mantém-se, é é canalizada de forma mais saudável. Cresci, simplesmente. Ainda existem, contudo, alguns ataques ou explosões. Aquilo a que a avó chama "a revolta do manso".

A emoção continua cá dentro. Não se manifesta em chorar a ver filmes, mau grado o ocasional nózinho da garganta. Pelo contrário, até me emociono mais a ler livros. Provavelmente, a minha imaginação leva-me a construir os cenários nos quais as cenas descritas se realizariam, sempre com o dramatismo ampliado.

É esta emoção que me aquece o coração e que às vezes também o gela. E o aperta forte. Sobretudo com mortes públicas. Lembro-me de pequeno me recusar a aceitar a morte do Ayrton Senna, sentado na sala dos netos, na longíqua casa dos avós no Restelo. De me comover com a morte do Fehér, na altura em que também escrevia um blog. Não de chorar, mas de ficar sem palavras. Do Marc Vivien Foe, até pela impressão que retive dos olhos já sem vida fixos no céu. Até do Sousa Franco. E agora, com a do jogador do Sevilha Antonio Puerta.

Não gosto de pensar na morte como não gosto de pensar no nada, ou no Universo. São coisas que me ultrapassam, e que nunca entenderei. Concentro-me mais na vida. No máximo, na efemeridade da vida.

No filme The Hours, imputa-se a Virginia Woolf a seguinte frase «Someone has to die in order that the rest of us should value life more. It's contrast. ». Deste contraste é suposto retirarmos lições; de reconhecermos a efemeridade da vida deverá nascer a vontade de a aproveitar ao máximo. Sermos melhores pessoas, quizás. Vivermos a vida ao limite, sem ligar a quaisquer fronteiras ou barreiras, para outros.

Para mim, a efemeridade obriga-me a repensar os passos que dou, certo. De deixar-me de adiar as minhas ideias e começar a concretizá-las, claro.

Só que esta semana voltei a lembrar-me, com a morte do Puerta, que afinal a nossa própria efemeridade, nesse sentido de lição de vida com a morte dos outros, só serve para nós. O que me custa, e que faz doer a vida que existe neste 1,65m de gente, é como a nossa efemeridade afecta os outros.

O Puerta deixou família, amigos e uma namorada/mulher, grávida de 7 meses. Tinha 22 anos. Chocou o mundo a sua morte pública. Choca-me a mim, também, mas sinto mais forte cá dentro os sonhos conjuntos que deixam de ser concretizados com outras pessoas. Dói-me a dor dos outros, basicamente. Nestas e em muitas outras coisas que vejo. Como as caras tristes, oblívias, que vejo no metro ou nas ruas, cuja vida parece-me não ser mais que uma rotina cinzenta, sem destino ou mesmo alegrias. Como a pobreza endémica a esta Sudamérica.

Lamechas, rídiculo, infeliz? Não me considero nada disto, mas também não tiro nenhuma lição daquilo que, afinal, sinto com mortes trágicas, nuas, desnecessárias.