7 Meses na América do Sul

A PUC de Santiago, o Direito chileno, o pisco e as empanadas, os Andes, o Pacífico, a Sudamérica, Rapa-Nui ... enfim, La Libertad.


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5.2.08

RN 40, Argentina

[10 a 14 de Janeiro de 2008]

A Ruta Nacional 40 desperta naqueles que conhecem a Sudamérica, e a Argentina em especial, os mesmos sentimentos que a Route 66 cria por quem ambiciona aventura ou apenas conhece um pouco de cinema e de cultura norte-americana. Acompanhando em paralelo La Cordillera, percorre todos os tipos de clima e vidas desde a fronteira Norte com o Chile até ao Sul patagónico.

Percorrida por Ernesto Guevara de motocicleta nos já nebulosos anos 50, é recomendada pelos guias como uma das melhores experiências de viagem da Sudamérica. Para nossa mágoa, ainda näo é desta que podemos correr um continente de jipe (aguardem um eventual "África Tour'2030"), pelo que nos resignámos - como em toda esta trip - a seguir os caprichos dos buses.

A saída de Torres del Paine por Puerto Natales, ainda no Chile, seguiu a rotina habitual na Patagónia de "entra no autocarro, sai do Chile, entra na Argentina, sai do autocarro" (ou vice-versa). Ainda antes de chegarmos a El Calafate já entráramos na poeirenta Ruta 40, quase toda em "macadame", ou estradäo, ainda que asfaltada nas zonas mais "comerciais", como aqui.

El Calafate, que encontrámos em solarenga hora de almoço, podia pereitamente chamar-se "Le Calfateur" e ser uma estância de ski nos Alpes franceses ou suiços. Simpática, de ritmo leve, turística mas de um comercial que näo sufoca quem vagueia pelas ruas. Estávamos lá para o Perito Moreno, um dos maiores glaciares do Mundo, um tour de "homem branco". Exigia levantar cedo, apanhar o autocarro no meio de japoneses, sul e norte-americanos de meia idade e voltar à tarde para almoçar num dos restaurantes da rua principal de Calafate, fazendo de seguida umas compras de material de montanha ou de campismo. Foi basicamente o que fizemos, com a excepçäo de que fomos de directa (apesar de termos pago lugar no camping). A noite passámo-la surpreendentemente com uns franceses que falavam inglês, em casa do Emiliano, um empregado de mesa argentino no restaurante onde jantáramos o mais delicioso que famoso Cordero Asado da Patagónia, regado por uma garrafa de Malbec (casta argentina) da casa Lopez. Noite surreal, com os franceses a tocar Pearl Jam e Metallica na guitarra, a pedidos do Bessa, enquanto eu olhava, sorrindo por dentro, pensando que viajar era isto mesmo.

Visto o Perito Moreno, que depois do que custara apreciar o Grey por cima, achámos demasiado fácil, muito "à mäo". Lá está, saboreia-se melhor a vida quando ela exige um pouco mais de esforço. Ou talvez a directa em cima näo nos permitiu apreender o Perito Moreno como espectáculo natural que é. A verdade é que parece sempre melhor nas fotografias. Lá acabámos, qual fado do turista na Patagónia argentina, sentados a beber uma cerveja nas esplanadas de Calafate, depois de um passeio pelas tiendas de camping.

El Chaltén, 200kms a Norte num desvio da RN 40, näo poderíamos, por sua vez, encontrar em mais canto nenhum do planeta. Sem estrada alcatroada, em pleno Parque Nacional dos Glaciares, é considerada área protegida, ainda que de beleza estonteante nada tenha. O que tem de especial é ser o inóspito ponto de partida para vários dos melhores hikings da Sudamérica. E por esta altura, como se conseguirá ler, já nos considerávamos hikers de nascença.

A noite cerrada de El Chaltén, com chuva e vento, deixou-nos à deriva na busca do parque de campismo gratuito. Acabámos clandestinos num camping com todas as condiçöes que no dia seguinte nos "esqueceríamos" de pagar. Montar a tenda com aquele clima, cheios de frio e sono, foi mais um desafio superado. Maiores do mundo na nossa cabeça, já nos imaginávamos guias de montanha em qualquer parte do globo.

É um pueblo mais pequeno e mais rústico (leia-se também "roots") do que Calafate, ainda que com muitos turistas e estabelecimentos de todos os tipos para ele virados. Mas pode mesmo chamar-se comercial a um sítio sem iluminaçäo pública em quase todas as ruas, sem um metro de alcaträo nas estradas, sem passeios ou bermas, só lama e estepe patagónica à volta, rodeado de montanhas nuas e escarpadas, onde no Veräo chove e chove, e no Inverno neva e neva?

Pelo tempo que necessitávamos poupar, terminámos com apenas um dia de trilhas e decidimo-nos pela mais difícil, a que levava ao sopé do Fitz Roy, montanha de escalada das mais técnicas, outro "postal" da Argentina patagónica. De mochila leve, näo custou mais do que já izéramos (maiores do Mundo), até decidirmos arriscar a última parte, que estava supostamente cortada. 700 metros de rocha, entre os blocos grandes que se sobem com apoio das mäos, e as pedras soltas e húmidas que ameaçam escorregar a cada paso que se dá. Mais chuva e mais vento. O Bessa a trilhar caminho mais à frente. Eu atrás, deixando lagos, ribeiros e florestas para buscar uma montanha coberta de névoa, amaldiçando entredentes esta nova paixäo pela Natureza. Eu a descobrir que viajar é aproveitar cada passo que se dá por que pode valer a pena, quando chego finalmente ao ponto mais alto. Uma pequena laguna, a Laguna de Los Tres (três cerros), de água azul escura por näo ter céu para reflectir. Vento e neve, arrastada das encostas do Fitz Roy que, como os Cuernos de Paine, se permite mostrar-nos uma nesga, para recompensar-nos pelo esforço. Neve no Veräo? Subir só por subir? Poder dizer que lá estive e que fui capaz? Ou só acordar sobressaltado em Lisboa, daqui a uns meses, com saudades daquela fria solidäo na Laguna de Los Tres, onde nesse dia näo teräo subido mais de dez pessoas?

Ainda tínhamos quase toda a Ruta 40 pela frente quando nessa noite, dia 12, nos fizemos à estrada. Só precisávamos de fazer pouco menos de metade dessa RN (Ruta Nacional) para o nosso destino, ocupando duas noites de viagem, o que näo dava para viver a sério o estradäo e a estepe. Foram 1500 kms em 30 horas em que talvez o que custou mais foi näo poder fazer o caminho ao nosso ritmo, desviando para aquele pueblo quando nos desse na telha, fazendo foras de estrada quando parecesse apetecível (estepe ou macadame näo variam assim tanto), dormindo no meio do nada. Dormir no meio do nada até dormimos. A vida de "buseros" é assim, levados por motoristas com ordens e horários, com ventilaçöes para ligar no máximo de calor à noite e filmes dobrados em castelhano para passar. Os condutores deste ainda seriam dos mais originais, extrovertidos (palhaços?), metendo-se constantemente com três inglesas esfomeadas. "Gordas, paren de comer!", poderia dar um toque de telemóvel täo bom como "Por qué no te callas?".

A nossa RN 40 näo foi a de Che quando ainda näo era Che. Foi a do Manel e do Bessa e dessas bifas "gordas" e desses "palhaços", e de outros turistas e de outras pessoas, e de estrada e estrada sem fim, que se deixaram levar para Norte naqueles dias de 12 para 14 de Janeiro. Se somos quem éramos é profundo, e lírico, demais para testar aqui. Fizemos a Ruta 40, fizemos. De noite, céu escuro sem luz. De dia, vegetaçäo rasteira e apenas adivinhando os Andes, paralelos mas longíquos. De noite, sonhando atravessar todos os climas e tipos de vida. E quando acordámos estávamos em San Carlos de Bariloche, Argentina.

27.1.08

Ao fim de näo sei quantos quilómetros

Uma pessoa perde-se e deixa coisas para trás.

Nesta viagem, mal menor para mim, tem sido só escrever no blog. De resto tenho tudo comigo, nomeadamente os Big Five - Passaporte, carteira, máquina fotográfica, Ipod e telemóvel.

Estamos em Copacabana, a da Bolívia, e dentro de umas horas em La Paz. Mais notícias e estórias atrasadas ficam para a capital.

Até logo.

16.1.08

Sinal de vida

[Bariloche, Argentina]

Só para dizer que sigo vivo, bem vivo e bem vivido, nesta Sudamérica.

O hostel surreal em que estou e o tempo de viagens de autocarro impede-me de escrever muito, mas no meu Moleskine tenho três posts na ponta da folha, mais um de fotografias.

Estamos de saída, de vez, da Argentina, mais um país que se fecha. E daqui vamos para Santiago - de regresso a Casa! - onde poderei por aqui tudo o que está em falta.

Vemo-nos daqui a muitos quilómetros, num sítio que já conhecemos.

9.1.08

O Mundo está ao contrário

Sentido de humor apurado ou a necessidade de nos agarramos a este Mundo?

O hostel em que ficámos em Ushuaia, depois de uma nega e de algumas voltas pelo traçado rectangular da cidade, chama-se Yakush. O nome, da língua nativa da Tierra del Fuego, já ninguém sabe o que quer dizer. Lá dentro, nas paredes coloridas, lê-se, entre outras frases "el fin es el princípio" e "el mundo está al revés". Paradigmático, o globo terrestre na recepçäo foi alterado para que o hemisfério sul esteja na parte de cima.

Ostenta-se orgulhosamente o título de cidade mais a sul do Mundo. Ou simplesmente O Fim do Mundo.

O ambiente na rua é de vilazinha nas montanhas, uma estância de ski. As pessoas estäo encasacadas e chamar Veräo a isto só pode ser uma piada. Para cenário de Alpes ou Pirinéus falta, contudo, a neve atirada pelo chäo e a marca de óculos no bronzeado da cara. A atmosfera é de aventura. Afinal, a Antártida está aqui a dois passos (e uns milhares de dólares), e tanto na Tierra del Fuego como na Isla Navarino (a sul, território chileno), têm muito para descobrir.

Nós fizemos a nossa parte, com um trekking de três horas no último dia do ano, no Parque Nacional da Tierra del Fuego, por entre lagos e florestas, com montanhas cobertas de neve no topo. Um aperitivo para Torres del Paine. Esticamos as pernas, calibra-se as máquinas fotográficas (especialmente a reflex do meu escudeiro Bessa), começamos a viver a Natureza e a tentar libertar-nos do ar condicionado e pegajoso das 50 horas em autocarro que nos trouxe até aqui.

No hostel, e em geral, somos dos mais novos. Somos os mochileros pendejos ["pendejo" é caläo castelhano com vários sentidos, entre eles o mais suave é "putos com a mania que sao espertos"], segundo o dono do hostel, e fugimos ao mercado que ele procura para o Yakush. A verdade é que somos dos mais animados, conseguindo mesmo descontrair a responsável pelo hostel na noite de Fim de Ano e fazer com que viesse sair com todos. O Fim do Ano no Fim do Mundo foi uma festa da globalizaçäo, tendo dito Feliz Ano Novo em várias línguas, desde o português de Portugal e do Brasil ao croata, passando pelos óbvios inglês, castelhano, francês, italiano, entre outros. Buon Anno! Feliz Año Nuevo! Bon Année! Happy New Year!

Uma equipa no nosso hostel realiza um documentário para uma televisäo croata. Nas ruas toca-se e faz-se barulho. Os hostels convertem-se em discotecas. Os paquetes ancorados no porto, cheios de americanos, buzinam para o ar. É festa como em outro lado qualquer, mas aqui as pessoas parecem agarrar-se mais à necessidade de festejar. Como precisam de se agarrar à Terra, já que estamos täo a sul que estamos de pernas para o ar. Ou entäo, estamos täo seguros que mais parece que estamos nós no topo do Mundo. Já näo éramos portugueses, de tanto falar e festejar noutras línguas. Fazíamos parte de uma massa enorme, de uma força imparável que anima os mais intrépidos e audazes a romper barreiras e a fazer-se à estrada por esse mundo fora. Como no globo do Yakush, o Mundo estava ao contrário. E nós estávamos lá em cima, felizes, quase (!) desligados dos milhares de quilómetros que nos separam daquilo a que até há pouco tempo nos habituámos a chamar de casa.

1.1.08

Na Terra de Ninguém

Ou Como chegar ao Fim do Mundo.

Näo é qualquer pessoa que vai à Tierra del Fuego. Daí a cumplicidade que se gera entre as pessoas que partilham o autocarro de Rio Gallegos para Rio Grande e, depois, para Ushuaia.

A nossa entrada no bus, tardia mas com estilo, é muito saudado e o espírito entre todas as pessoas é muito bom. Toda a gente mete conversa com toda a gente. "Son de Portugal? Yo tengo un apellido portugués - Pereira"; "Adonde va usted?". Oferece-se e reparte-se comida, ensina-se coisas sobre a Patagónia e a Tierra del Fuego.

O mais curioso é estas terras estarem divididas entre Chile e Argentina. Por quatro vezes passámos em Aduanas. Sai da Argentina. Entra no Chile. Sai do Chile. Entra na Argentina. Pelo meio viajamos por terras de ninguém, por terras disputadas e por algumas ainda defendidas por minas antipessoais. E cruzámos o Estreito de Magalhäes, num dia calmo, entrando assim na maior ilha da Sudamérico, baptizada por Magalhäes [traidor ao serviço de Espanha, segundo o meu Sancho Pança] ao ver as fogueiras dos nativos por trás das montanhas.

Aqui, picardias sobre petróleo, gás natural e pastos férteis à parte, sente-se a tal magia. No olhar íntimo das pessoas, nas paisagens, nos ventos polares que nos atacam sem piedade. Estamos a Sul. Estamos, Antártida à parte, no ponto mais a Sul do Mundo. Só o conceito é estranho o suficiente para por a cabeça a andar à roda e os pulmöes a respirar mais devagar. A realidade, meus amigos, a realidade do que se vê e se sente é indescritível.

Venham cá abaixo ver isto.

Na Terra do Nada

Ou Onde é que nós estamos?.

Rio Gallegos, 36 horas depois de Buenos Aires. Nem nós sabemos bem onde é que isto fica, quanto mais as nossas famílias.

[para que se saiba, Rio Gallegos fica no Sul da Patagónia Argentina, junto à costa, e é a porta de saída para a Tierra del Fuego]

Comparado com Buenos Aires, esta pequena cidade tem de facto muito pouco e nada que se acrescente a esta viagem. Já o Lonely Planet avisava. Junto do terminal rodoviário, um camping onde estreamos a tenda comprada à saída de Buenos (mostrámos que ainda temos sangue campinaciano a correr em nós. tal a rapidez com que montámos e desmontámos a tenda); no centro, restaurantes onde comemos bem e barato e ciber-café onde passámos horas na Internet e a jogar Playstation, depois de uma frustrada visita a um museu. [e aquele palerma que jogava Playstation sozinho com a namorada sentada ao lado a ver?!]

Nem aquilo que parecia que nos ia ser "oferecido" por Rio Gallegos, os 120 pesos que ganhámos no casino, acabou nosso, mas de um taxista da cidade.

É que, depois de uma alvorada antes das sete da manhä para apanhar o autocarro das 8.30h, o nosso fado de "maus apanhadores de transportes", encontrou-nos neste cantinho escondido do Mundo. Estávamos no terminal às 8.04h, mas isso näo chegou, porque a hora tinha mudado (adiantado) na noite antes.

Em sintonia, o Huckleberry Finn e o Tom Sawyer (leia-se, Bessa e Manel) decidem apanhar um táxi. A nós junta-se um americano (estado-unidense) professor de inglês que vai ter com os pais (a fazerem um cruzeiro) a Ushuaia. Nem meia hora depois alcançávamos o autocarro, ainda antes da fronteira, fazendo o taxista festejar ainda mais do que nós. Lá o deixámos, 170 pesos mais rico, feliz por si e por nós, enquanto que eu, subindo para o bus, decidia que nada acontece por acaso.

25.12.07

Eles andem aí...

...e voem.

Rumo a Sul.

De Punta a ponta

Corre.

O vento, a off-season de Punta del Este, a ausência de movimento (quase), a saída da Península.

Corre.

Por outro lado, o sol e calor, a alegria, o hostel colorido, os preços, a tranquilidade.

Corre.

Desde Punta del Este, na parte Este (qual outra?) do Uruguai, até Colónia de Sacramento, em pleno Rio del Plata, virado para Buenos Aires.

Corre.

A Miami da Sudamérica e a fortificaçäo portuguesa que permitia o tráfico para Buenos Aires, de acordo com os interesses portugueses dos séculos XVIII-XIX.

Corre.

O dinheiro esticado ao máximo e a necessidad de sacar dinero de un cajero.

Corre.

O caminho da Rodoviaria até ao HSBC foram cinco minutos de corrida, quando percebes que já näo corres há meses. "Corre", diz a voz dentro de ti. É preciso apanhar o bus para Montevideu e depois para Colónia. E à medida que os teus amigos te esperam na Rodoviaria e tu excedes os limites físicos presentes vais esgotando os últimos segundos de Punta, que te fazem notar a definiçäo de Punta del Este sem movimento - poucas pessoas, pouca agitaçäo, mas um sol e mar incríveis, quase perfeitos, fosse ao por ou ao nascer do Sol.

Corre.

A verdade é que já estou em Buenos Aires. Apanhei aquele bus?

24.12.07

41 anos a virar frangos

"Virar frangos" é caläo para "saber muito", especialmente usado pelo Bessa e por mim desde a EuroTrip de Fevereiro 2007. Ouvia-a a primeira vez, verdade seja dita, da boca desse grande conhecedor do vernáculo português que dá pelo nome de António Pedro Caldas Matias, vulgo Toy.

O Uruguai näo desilude. Primeiro, como näo gostar deste castelhano (castijano, portanto) em que os ll e os y säo pronunciados com j. Depois, a paisagem - ou verde ou água. No fim, a descoberta da Ciudad Vieja de Montevideu.

As voltas pela cidade velha montevidenha, o almoço no Mercado del Puerto (parrillada regada a Medio y Medio!) e o doce fazer nada na Plaza Independencia, jogando â bola com crianças ou só a beber cerveja e apanhar sol. À noite, fiesta na Calle Bartolomé Mitre, acabando já com o sol alto na Rambla marginal vazia.

Näo cheguei a apresentá-los mas os meus irmäos de armas neste início de Tour säo três, às vezes cinco. O Bessa, com quem vou viajar até ao fim (Que paciência!), obviamente já planeando viagens futuras (o eternamente adiado Interrail, a Route 66 nos EUA, Índia e Sudeste Asiático e, a cereja no topo do bolo, fazer África por inteiro, ligando a Cidade do Cabo a Ceuta). Mais, o Gonçalo (Lalo; Lálonge para os zucas, pelos seus 2m e pico) e o Bernardo (ou Biá), housemates do Bessa da Carlos Góis. E ainda os Joäos da muito longíqua FDL, o Martinho e o Castilho, que estudaram no Rio este semestre, com quem nos encontrámos em Florianópolis, Montevideu e agora Buenos Aires. Mas calma, que já lá vamos.

Por agora estávamos em Montevideu, ainda longe de sair para Punta del Este. Estávamos a atalhar caminho entre a parrijada, ao balcäo de um tasco do Mercado del Puerto, por entre riñones, chinchurrijones, morcillas, chorizos, pojo e outras. À nossa frente um senhor com ar experiente (eufemismo para velho), encarregado da parrilla/grelha, fazia saltar as carnes enquanto atirava toros de lenha para o fogo e geria as brasas, gritando ainda ordens para dentro do restaurante. Näo me lembro do nome, se o perguntámos, mas uma coisa fixei. Está há 41 anos a virar frangos. Literalmente.

16.12.07

Vai p'rá lá que vou p'rá cá

Finta que os brasileiros atribuem ao Robinho e que nós, tugas, reclamamos para o Cristiano Ronaldo. Descreve-se como um jogo de pernas e ancas que leva o adversário a dirigir-se para um lado, enquanto o artista segue tranquilamente para o outro.

Ao sabor da estrada, tenho andado a fazer esta finta na vida real. Do Rio para a Foz do Iguaçu, daqui para Ciudad del Este (Paraguai) e de volta, do Iguaçu para Curitiba, como porta de passagem para Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina. 2 países e 4 estados dentro do Brasil - Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Ao contrário do Cristiano Ronaldo ou do Robinho, a "finta" foi feita muito devagarinho. Depois de uma directa na Carlos Góis, onde fica a mais mítica casa tuga no Rio (tem passado por mãos portuguesas nos últimos três anos), saímos para Foz do Iguaçu às 10 da manhã, já com duas de atraso. 25 horas e quatro - quatro - ônibus depois, chegávamos à cidade das Cataratas. Quatro autocarros porque teimavam em quebrar - limpa pára-brisas, freio e caixa de velocidades. Valeu a pena? Já se sabe, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Não é. Nem as Cataratas. Para aqueles, como a mãe, que gostam de realçar o engenho do Homem, a Foz do Iguaçu esmaga-nos com a força inigualável da Natureza. Engenho de Deus? Se for verdade que cada pedra, cada árvore, cada animal ou pessoa são postas no Mundo para que o dia as possamos encontrar no nosso caminho, obrigado pelas Cataratas do Iguaçu.

Na mesma tarde, um salto à Ciudad del Este, junto à fronteiro do lado do Paraguai. Compras (é uma zona franca; ou, nas palavras do Bessa, "parece a Uruguaiana, que é três vezes a feira da Praça de Espanha, mas em tamanho de cidade"; para quem conhece a Urguaiana no Rio...) - óculos Ray Ban da feira (8 euros); cartão de memória Sony (20 euros); relógio Nike da feira (4 euros; o do Bessa não durou 24 horas); jantar japonês a 8 e regresso alucinante para o Brasil em moto-táxi (4 eróis). Paragens nas aduanas do Paraguai e Brasil - hilariantes.

Primeira paragem, Paraguai.
"Puede carimbar, por favor?"
"Está entrando de Brasil?"
"No, estamos saliendo."
"Entró sin registrarse?"
"Uuhhh, si, el bus no se quedó aquí."
"Pero, si está saliendo, para qué quiere el carimbo en el pasaporte?"
"Recuerdo, recuerdo." [pim. carimbo.]

Segunda paragem, Brasil. [fila de 20 pessoas e nós com 10 minutos para chegar]
"Desculpe, tenho de esperar aí?"
"Tem, sim."
"Não posso passar sem carimbar. É que tenho visto para 7 meses."
"Quê? Você saíu para o Paraguai agora tem de carimbar entrada."
"Mas eu não carimbei nada a sair, o ônibus não parou."
"Saíu ilegau do país? Multa di 100 reais."
"Mas eu tenho visto de 7 meses..."
"Bem, só posso fazer uma coisa - vocês não saíram do Brasiu, também não vão entrar" [segue.]

Lá apanhámos mais um ônibus e depois de um pequeno-almoço em Curitiba, demos por nós em Florianópolis, ou Floripa para os amigos. Para continuar o nosso ziguezague pela América do Sul tratámos logo das passagens para Montevideu, próximo destino. Até lá ficamos na prainha, numa boa, durante uns dias.

Vá você p'rá lá que agora eu fico aqui.

Para cá da Cordilheira

Sentado num segundo andar de uma ruela pequena mas movimentada em Barra da Lagoa, Ilha de Santa Catarina, abro o moleskine e passo uma vista de olhos pelos últimos dias e pelos 10 posts que tenho de escrever sobre o meu último mês no Chile. Decido saltar esse período e guardar os posts, escritos em tópicos, para outras alturas. Quando os postar vão estar com a tag Remirada. Mas agora, agora é tempo de seguir viagem.

A saída de Santiago foi triste. Muito. A lágrima chegou a estar cá fora à medida que me afastava de Casa em direcção ao aeroporto. Quis o destino - ou o motorista - que fizessemos um percurso que apanhou alguns dos lugares marcantes da minha vida este semestre. A Casa Central da PUC, jardins, ruas no Centro, tudo visto da perspectiva das cinco da manhã, quieto, solene, cinzento. De luto. De despedida. Chegara ao fim.

Começava uma nova etapa - a Viagem pela Sudamérica. Tudo muito lento no aeroporto, mais os 144 dólares de excesso de bagagem, eu a atrasar-me com todos estes problemas, sem dormir, mais o Starbucks fechado. Uma conjugação de factores que me empurrava de volta para Santiago. Resoluto, opus-me a tudo e lá saí. Para o Rio.

Avião da LAN Chile impecável, televisão em cada banco, sozinho numa fila de três lugares, a viagem ideal para me desligar do facto de estar a sair de uma ciudad a que me habituei a chamar de minha, do semestre mais brutal da vida.

Atravessar a Cordilheira dos Andes foi o marco. O cortar do cordão umbilical - já não sou mais chileno, santiaguino, sou um cidadão destra Maíuscula América, seja de que país for.

O Brasil não me chamava especial atenção, queria sair de lá o mais rápido possível para voltar a mergulhar no imenso mundo hispano-americano a que me habituei a pertencer. O Rio, talvez sentindo esta minha quase hostilidade, recebeu-me com as luzes dos corredores e das salas do aeroporto sem funcionar, sem hipótese de trocar dinheiro. Lá me meti num táxi e cheguei ao Leblon. Banho no mar e filet com queijo no Bigpólis depois, estava atolado em água - levantou uma tempestade tropical que só nos largou quando, um dia depois saímos do Estado do Rio de Janeiro.

Hei-de lá voltar em Fevereiro, alimentado por histórias do Bessa sobre a Cidade Maravilhosa. E aí vou querer viver tudo. E o Rio vai receber-me com sol e luz. E até o filet com queijo vai saber melhor.

9.8.07

Apontamento de Madrid


Ligo a televisão no quarto do hotel e tenho ideia de estar a ver a TVI. Saudades de casa?

Não. É o mesmo programa idiota de uma miúda que parece speedada à espera que lhe liguem para as pessoas dizerem nomes de coisas, que dá às três-quatro da manhã. Em Espanha também há mas juntaram-lhe um chico qualquer. Porquê fazer figura de parvo sozinho se podes fazê-lo acompanhado? Muito à frente, estes espanhóis. E nós a imitar.

A viagem mais longa

De Lisboa a Santiago do Chile são, quase exactamente, 30 horas de distância.
Para mim foram.

Horinha de viagem tranquila para Madrid. Embrenho-me nas primeiras páginas do Harry Potter. Quando dou por mim estou em Barajas - 22 minutos para o Terminal U. Um comboio sem piloto abrevia esses minutos. Espero ao pé do gate. Mais Harry Potter, Expelliarmus, Avada Kedavra. Mais um avião, mais uma viagem.

«...srs.pasajeros no hay necesidad de entrar en panico, pero hay un fallo mecanico y no podemos traversar el Atlantico, tenemos que regresar a Madrid...»

Mas em vez de voltar logo, porque não dar umas voltinhas durante duas horas entre Madrid e Salamanca? Abre-se o bar, dá-se uns cacahuetes aos passageiros.
Quando aterramos ficamos parados durante uma meia-hora. Dá tempo para apreciar alguns dos planemates - um grupo folclórico chileno, de chapéu gaúcho; uns chilenos que iriam passar a viagem no dia seguinte a aproveitar o vinho do bar aberto do voo; um casal de italianos, no qual se destaca a ragazza, já de meia idade, de dicionário na mão - "ayer ha sido lo mismo, cabrones! cabrones!"; um chico mais velho, cabelo meio comprido, estilo mesclado entre surfista e bagpacker com algum dinheiro, que saca dum portátil minúsculo e começa a falar pela net móvel, webcam e tudo.

Empurrados para hotéis, quase sem explicações. Sem comida, recorre-se ao mini-bar, o sumo de pêssego mais caro da minha vida, e a um chocolate esmagado na mochila. E as broas que ficaram em Lisboa!

De novo, de manhã, arrastados para o aeroporto. O MacDonalds da moda. Nova viagem de comboio, agora para o Terminal R. E siga, mas 13 horas. Dá para acabar o Harry Potter. Ah é verdade, ele morre, lamento.

Sair do ninho

Dizem que a família são os amigos que Deus escolheu para nós e que os amigos são a família que nós escolhemos.
A ideia, penso, é a de realçar a importância dos amigos.
Pudesse ter escolhido, a minha família seria a que tenho. Nem mais uma pessoa nem menos. As forças e fraquezas de todos revelam-se tão claramente em tudo o que fazemos em grupo, que às vezes parece que estamos a brincar com as pessoas e as famílias que se esforçam para mostrar uma coesão que provavelmente não existe.

Isto a propósito da saída de Lisboa. No limite do tempo, com coisas deixadas em casa por esquecimento - como sempre! - discussões surdas pelo meio suavizadas com um beijinho ou um afago na cabeça. Os nervos à flor da pele. O filho - um pródigo mais velho - prepara-se para fugir para a América do Sul por 7 meses. Muito tempo.

Chegar ao aeroporto.
A mãe, com a ansiedade a fugir-lhe pelos cabelos brancos, poucos, que já tem, as mãos a contorcerem-se. Mas ninguém dá por nada, forte como sempre. Parece que me está a levar ao Colégio, e que às cinco da tarde estou em casa estou em casa a ver o Dragon Ball. Não mãe, não vou estar.
A irmã mais velha, sabedora, experiente, lá resolve o peso a mais da bagagem. Abre-se mochilas, malas, sacos de plástico. Feira de ciganos. A roupa da neve salta. Discretamente passa umas notas para o bolso do irmão que indecentemente foge para longe, notas que fazem falta mas ele precisa mais. Não Constança, não preciso.
A irmã mais nova alterna entre a piadinha para quebrar o não sei quê que nos esmaga o coração e as lágrimas. Habituados à palhaçada desde pequeninos, e às discussões, sempre funcionaram como anjos da guarda um do outro. E agora? O irmão vai fazer-lhe falta. Não Mariana, não vou. Não tanto.
A avó representa a família do pai. O chauffeur leva-a ao aeroporto. O neto, o orgulho, que se arma em Che Guevara, e a avó perdoa-lhe e vai despedir-se em pessoa. Ande bem vestido, lembre-se dos contactos do avô - ah o avô, que vai ter tantas saudades - não se esqueça de ir à embaixada. Não avó e avô, não esqueço.
O cunhado, a família que cresce. Calmo, sorriso nos lábios, observa a cena. Compreende a importância, quase solenidade, da despedida, mas está um pouco de fora. Diverte-te, aproveita bem! Não Carlos, não vou!
A sobrinha chora, reclama atenção. O aeroporto ou outro sítio qualquer. As pessoas que passam. Uma cara conhecida que lhe dá um beijinho e lhe diz que volta daqui a uns meses - o que são meses? Não Teresa, não vais ter saudades, claro.
O tio, mais experiência de mundo ainda. O conselho mais sábio. A objectividade. O aproveitar das oportunidades. Para o sobrinho que se vai, a importância da sua presença, e da sua voz. Não tio, não vou deixar fugir as oportunidades.
O pai controla pelo telefone. Não pode lá ir, amargura um pouco com o dinheiro que se gasta, que se lhe foge. Mas ajuda, empurra decididamente o filho para a aventura. Sem isto não haveria chile-out. Um pouco surpreso com a força que o pai acaba por dar, por voltas que dê, o filho deixa-se ir. Não pai, não me vou esquecer.
O irmãos não estão em corpo. Estão em espírito. Pelo menos no meu. Sim Goga, vai ter de ser o homem da casa.

Peripécias que não param. A pasta do portátil que fica na Vodafone do aeroporto. Ligam-me para o telemóvel - não deixou ca nada? Já tinham evacuado a loja, seguranças de colete pegam na pasta - com as mãos, assim?! - e o portátil novo que ficava em Lisboa.

Vamos então. É a hora. Abrir as asas e saltar para o mundo.