Cenário idílico, ao menos em versão chilena. Sal e deserto à volta, flamingos, mais sal e mais deserto. Sol e céu azul. Paz e tranquilidade. Depois de absorvida toda esta calma da Laguna Chaxa, a sul de Toconao (que por sua vez é ainda mais a sul de San Pedro, para dentro do já nosso Atacama), só apetecia rolar feliz para Santiago. Mas a viagem não ía ser assim tão fácil.
Marcha-atrás, compasso de espera para beber água e meter primeira. PAAAAAAAAAAAAAAAAAU! À nossa esquerda, atrás, alguém acabava de decidir romper a nossa harmonia com o mundo, abalroando-nos enquanto estávamos parados. Era o velho que nos tinha dado indicações em Toconao, que guiava uma Kia Besta - carrinha de 9 lugares a cair de podre. Um misto de sentimentos passou pelos seis, num espaço de minutos. Incredulidade, isto não pode estar a acontecer; raiva, o homem é parvo?; pena, ele não tem dinheiro para nos pagar; nervos, alguém viu o que o homem fez?; violência, vamos partir-lhe o carro; pena, outra vez; racionalidade, vamos ligar para o rent-a-car, para o seguro, para a polícia. Como era feriado, nem seguro nem rent-a-car. Sobrou-nos a polícia. Lá ligámos para o 133, número nacional dos Carabineros.
Lá vieram os de Toconao, já conhecidos, por que também aí pedimos instruções. O deserto acaba por ser pequeno.
Enquanto esperávamos, tempo para arranjar testemunhas. O caso começava a ser complicado já que o velho, que ao início assumia as culpas, agora negava tudo e nem sequer tinha seguro. À sudamericana, propusémos resolver tudo se nos entregasse 100.000 pesos - cerca de 150 euros. Obviamente, não tinha.
Por sorte, lá deu para ver mais um pôr-do-sol, mais uma "momento kodak" (hoje, mais um "momento máquina digital ultra-compacta"), com a esfera de fogo a fugir para o mar atrás da Cordilheira do Sal e a deixar o deserto, branco do sal, alaranjado da luz.
Lá chegaram os Carabineros de Toconao, lá fomos para Toconao esclarecer tudo. Pormenor - os turistas espanhóis que o velho transportava passaram as quase quatro horas do impasse (das 18h às 22h) dentro da Kia Besta. Até nos tiveram que pedir papel higiénico para poder ir atrás das moitas, que os Carabineros não os deixaram usar a sua casa-de-banho (respeito acima de tudo ou vergonha da sujidade?). Já não sabia de quem ter mais pena; se dos turistas prisioneiros, se do velho sem dinheiro, se de nós. Mas, estando juntos, sempre tudo parece mais relativo, pelo que, quanto a nós, estava tranquilo.
Decidimos não fazer uma denúncia, apenas pedir um relatório de ocorrência em que o senhor, finalmente, vencido pela exaustão (até os Carabineros o pressionaram), lá aceitou em declarar que nos abalroara. Serviria para que o rent-a-car nos ilibasse de pagar estes danos específicos - pensávamos nós...
[esquadra - retén - dos Carabineros de Toconao]
Passado este calvário, jantar improvisado num almacén típico da Sudamérica em Toconao. Daqueles que serve desde talho a farmácia, incluindo loja de ferragens, embora não seja muito maior que o nosso jipe. Sanduíches de queijo, atum, bolachas, água, sumo, batatas, mais uns munchies para a viagem e listos.
San Pedro de Atacama - Calama - Antofagasta - tudo parecia rolar a nosso favor, tentando atravessar o deserto pela noite para apanhar o tempo perdido. Ou não.
«- O que é que aconteceu?
- Eh pá, tivemos um furo, vou encostar»
E aqui prosseguem os desastres. Para quem não se lembre, os jipes têm o pneu sobresselente atrás. Uma vez que seria fácil de roubar, uma das porcas que o prendem tem uma fechadura. Esta abrir-se-ia - abrir-se-ia - com a chave da ignição. Pois, nós apanhámos o único jipe em que a chave de ignição não funcionava. Eram 4 da manhã e estávamos em pleno deserto do Atacama, a 300 kms de Antofagasta e a 100 de Chañaral.
Vá de tentar tudo, dividindo tarefas. Rebentar a fechadura pela força, impossível. Tentar ligar aos outros, que já estavam a dormir em Caldera, mais de 200 kms para sul, a pedir ajuda; não nos deram muita atenção, até porque a rede é quase nula quando se está em pleno deserto. Ver o quilómetro em que estávamos para ligar a assistência em viagem ou à polícia (coube-me a mim); lá acabei por perceber que não havia placas de um em um quilómetro, nem de dois em dois ou sequer três em três. O número certo era cinco, soube eu depois, e, depois de andar quase meia hora para Norte de novo, quando o jipe não era mais que quatro pontinhos luminosos a piscar, decidi regressar. No meio disto, o céu. É impossível descrever a luz das estrelas, as milhares de milhões de luzes, entre elas muitas "estrelas cadentes". Nunca vi um céu assim e duvido que conheça alguém que tenha visto. Ou seja, quando tudo parece perdido, há algo a que nos podemos agarrar.
Para além deste céu brutal, tivemos que nos agarrar uns aos outros para nos aquecermos dentro do jipe, para tentar dormir ao frio do deserto. Não sem mais um nascer do sol andino. Estamos a começar a ficar bons nistos.

impossível de reproduzir;
oxalá tivera a tal máquina implantada nos olhos]
Depois de poucas horas - duas, três - de pouco sono, lá voltamos a virar atenções para a estrada, para pedir ajuda. Lá parou uma família de carrinha de caixa aberta todo-o-terreno. Pneus largos, é capaz de servir. Mas era Nissan e nós Suzuki, não deu. Mas deu-me boleia para Chañaral, pneu debaixo do braço, para procurar uma "vulcanizadora" onde pudesse remendar o pneu.
«Imposible, está muerto», disseram-me em várias. E pneus novos iguais, não havia neste pueblo feio e muito sujo. Apesar de todo o apoio desta família, que me deu boleia, comida, até chegou a oferecer dinheiro, não havia maneira de resolver a situação. Já eram 10 da manhã e o conselho único do rent-a-car, com que falava ao telefone, era partir a fechadura. Obrigadinho!
«Diogo, partam essa m... à força, nem que peçam a um camionista para isso» - sms enviado quando já desfalecia ao sol, em cima de um pneu furado, numa estação de serviço em Chañaral.
«Já conseguimos!» - sms recebido meia-hora depois. Um sorriso passou-me largo pela cara suja e cansada. Gastei as forças todas nesses dois segundos de alegria, finalmente podia dormir.
Enquanto dormia, não dormia com o pneu debaixo do braço e costas contra a parede de vidro da estação de serviço, dei por mim a pensar que, no fundo, era este o tipo de coisas que queria viver - e, sobretudo, superar - quando decidi vir para o Chile. Onde é que isto se podia passar na Europa? Nas auto-estradas de França, Itália, Alemanha? Agradeci estas horas no deserto e a forma como, todos juntos, as ultrapassámos. União, solidariedade tuga, tendo por base a boa disposição, mesmo quando a corda estava a ponto de ceder, de tão esticada que estava. A música escolhida para este episódio não é mais do que um reflexo disto mesmo. Quando as circunstâncias pediam um fado, algo trágico e fatalista, respondemos com salsa e risos. E saímos por cima, rumo a Sul e ao Pacífico.
Faixa 10. Don Maclean - Vincent
[esta sim, para ouvir calmamente a pensar na noite atacamenha]